Arquivos de December, 2005
Evidências
Vai ficar o frio de Londres,
os dedos gelados do meu pé
nas tuas costas nuas.
Tuas mordidas, a minha asma.
Silêncios, ruídos e risadas.
Os suspiros. A fumaça.
As luvas finas para nossas mãos dadas.
As horas, que nessas horas doces,
teimam em ser, assim, apressadas.
Não vamos nos perder, existe memória.
Existimos sim. Deixamos pistas, provas.
As paredes como testemunha.
Larguei-me os cabelos cobrindo teu lençol,
Trouxe tua pele escondida sob minhas unhas.
Correspondência Violada
Marcio,
Tive que ouvir a canção duas ou três vezes. Na verdade eu quase sempre faço isso: a primeira é para sentir a melodia. Você me manda um choro e eu que já tinha vontade de chorar evito as lagrimas tentando reger-lhe os compassos. Às vezes bate dessas melancolias, é muita paz. E perto do Natal todo mundo me deseja ainda mais paz…mas eu acho que eu queria ficar um pouco maluca, ando tentando, dura uns minutos, eu falo umas bobagens, mas a paz, volta.
A segunda é para tentar reparar quais palavras gritam quando a mão se alça na cabeça do compasso. Tenho essa impressão de que isso pode ser uma espécie de oráculo. Mas os compassos do choro são binários, mordi silabas que não diziam palavras. Ate que de repente minha mão estava no alto e se ouvia a palavra mar: mais mar? Alto mar?Há mar? Hum…curioso como essas palavras mágicas são graciosas e nos permitem ouvi-las como bem nos aprouver, não?…eu sou sempre positiva nas minhas interpretações.
(Essa carta foi interrompida pela necessidade de comer alguma coisa, acho que perdi o fio da meada)
A terceira, bem, a terceira é a que dói. A terceira é mergulhar e se deixar levar pela poesia, esta que bem pode ser palavra, melodia, ou um detalhe de percussão no fundo quase imperceptível. Lembrei-me, de repente, da linha de tuba do hino nacional. No dia da minha formatura eu ria na hora solene, um amigo me perguntou se eu estava louca e eu disse:é a tuba! Estava louca, talvez. A terceira é a que dói no caso da canção que você me mandou.
Eu choro o choro que toca. Eu me parto e parto para espalhar meus pedaços pelo mundo, não para encontrar amigo. Deixando um bocado de mim por toda parte maior chance eu tenho de bela hora ser encontrada. Ah, Marcio, eu quero mais mesmo é continuar perdida, a desorientação nos aguça o olhar. Eu quero achar referencias ainda não notadas de mim no espaço desconhecido mas não viajo essa utopia de que existe um lugar onde eu possa cessar a busca . Verdade seja dita, eu não estou procurando nada, nada metafísico pelo menos.
Mas isso não impede que quando a saudade for muita alguém venha me buscar.
Beijos
Ana
Correspondência Violada
Terminei de ler sua carta cheia de remorsos. A falta de tempo é sempre uma desculpa para a negligência, mas não me parece que seja jamais uma desculpa aceitável. Resta-me pedir-lhe perdão. Você sabe que eu tenho essa vocação besta para fazer tudo errado.
Cheguei em São Paulo de ônibus, envolvida nos meus sonhos bobos e me enfiei no metrô. São Paulo não me pareceu diferente de qualquer outra grande cidade, não sei se porque eu nunca abstrai São Paulo ou se porque eu estou começando a desromantizar o mundo. São Paulo, de qualquer forma tinha aquele perfume bom de poluição que me grudava nos cabelos tirando de mim o ranço de vida rural que pega na carne da gente quando nesses lugares de muita paz.
Cheguei em São Paulo cheia de poesia Marcio, dessa poesia imbecil que e só minha e que acabou que não me deixou espaço para você, para a planejada vista a Liberdade e para os pistaches iraquianos. Eu sonho essas coisas impossíveis e acredito. São Paulo, no dia 13 de novembro era um sonho bom e foi um sonho esquisito mas bom até que eu acordei.
Acordei sentada num sofá da sala de espera de Guarulhos, comendo uma nhá-benta da Kopenhagen e respondendo com bigode de marshmelow uma pesquisa da infraero. Tentei lembrar coisas, sacudi minha cabeça com forca, mas minha memória apagou. Depois era Amsterdã, a imigração implicando com a foto do meu passaporte danificada que curiosamente parece mais comigo que eu no espelho. E depois Glasgow. E depois, casa.
E depois casa, onde eu sonho todos os dias coisas que eu tento, mas não consigo esquecer.
No comments