Correspondência Violada

Marcio,

Terminei de ler sua carta cheia de remorsos. A falta de tempo é sempre uma desculpa para a negligência, mas não me parece que seja jamais uma desculpa aceitável. Resta-me pedir-lhe perdão. Você sabe que eu tenho essa vocação besta para fazer tudo errado.

Cheguei em São Paulo de ônibus, envolvida nos meus sonhos bobos e me enfiei no metrô. São Paulo não me pareceu diferente de qualquer outra grande cidade, não sei se porque eu nunca abstrai São Paulo ou se porque eu estou começando a desromantizar o mundo. São Paulo, de qualquer forma tinha aquele perfume bom de poluição que me grudava nos cabelos tirando de mim o ranço de vida rural que pega na carne da gente quando nesses lugares de muita paz.

Cheguei em São Paulo cheia de poesia Marcio, dessa poesia imbecil que e só minha e que acabou que não me deixou espaço para você, para a planejada vista a Liberdade e para os pistaches iraquianos. Eu sonho essas coisas impossíveis e acredito. São Paulo, no dia 13 de novembro era um sonho bom e foi um sonho esquisito mas bom até que eu acordei.

Acordei sentada num sofá da sala de espera de Guarulhos, comendo uma nhá-benta da Kopenhagen e respondendo com bigode de marshmelow uma pesquisa da infraero. Tentei lembrar coisas, sacudi minha cabeça com forca, mas minha memória apagou. Depois era Amsterdã, a imigração implicando com a foto do meu passaporte danificada que curiosamente parece mais comigo que eu no espelho. E depois Glasgow. E depois, casa.

E depois casa, onde eu sonho todos os dias coisas que eu tento, mas não consigo esquecer.

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