Correspondência Violada
Marcio,
Tive que ouvir a canção duas ou três vezes. Na verdade eu quase sempre faço isso: a primeira é para sentir a melodia. Você me manda um choro e eu que já tinha vontade de chorar evito as lagrimas tentando reger-lhe os compassos. Às vezes bate dessas melancolias, é muita paz. E perto do Natal todo mundo me deseja ainda mais paz…mas eu acho que eu queria ficar um pouco maluca, ando tentando, dura uns minutos, eu falo umas bobagens, mas a paz, volta.
A segunda é para tentar reparar quais palavras gritam quando a mão se alça na cabeça do compasso. Tenho essa impressão de que isso pode ser uma espécie de oráculo. Mas os compassos do choro são binários, mordi silabas que não diziam palavras. Ate que de repente minha mão estava no alto e se ouvia a palavra mar: mais mar? Alto mar?Há mar? Hum…curioso como essas palavras mágicas são graciosas e nos permitem ouvi-las como bem nos aprouver, não?…eu sou sempre positiva nas minhas interpretações.
(Essa carta foi interrompida pela necessidade de comer alguma coisa, acho que perdi o fio da meada)
A terceira, bem, a terceira é a que dói. A terceira é mergulhar e se deixar levar pela poesia, esta que bem pode ser palavra, melodia, ou um detalhe de percussão no fundo quase imperceptível. Lembrei-me, de repente, da linha de tuba do hino nacional. No dia da minha formatura eu ria na hora solene, um amigo me perguntou se eu estava louca e eu disse:é a tuba! Estava louca, talvez. A terceira é a que dói no caso da canção que você me mandou.
Eu choro o choro que toca. Eu me parto e parto para espalhar meus pedaços pelo mundo, não para encontrar amigo. Deixando um bocado de mim por toda parte maior chance eu tenho de bela hora ser encontrada. Ah, Marcio, eu quero mais mesmo é continuar perdida, a desorientação nos aguça o olhar. Eu quero achar referencias ainda não notadas de mim no espaço desconhecido mas não viajo essa utopia de que existe um lugar onde eu possa cessar a busca . Verdade seja dita, eu não estou procurando nada, nada metafísico pelo menos.
Mas isso não impede que quando a saudade for muita alguém venha me buscar.
Beijos
Ana
© 2005, Ana Mangeon. All rights reserved.
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