Correspondência Violada
Querido Marcio,
Eu praguejei por três horas quando a moça indiana entrou no ônibus e eu não tinha papel e caneta para escrever. Olhei para ela e pensei: o Marcio precisa saber dessa criatura. E ela me olhou e sorriu.
Ela tinha todos aqueles panos na cabeça, coloridos como uma cabeleira de seda rosa e lilás, lábios pálidos contornados com o lápis marrom. Ela sorriu com lábios imóveis, mas eu sei que sorriu. Seus olhos cintilavam contornados em tinta preta – como haviam estado também os meus agora borrados de tentativas de sono e choro parco-quando se apercebeu que eu a notara. Seus olhos me perguntavam docemente porque eu estava olhando, o que me fez chorar, para onde eu estava indo se eu queria era ficar.
Seus olhos me alvejavam dizendo: eu sou feliz e você?
E sem resposta eu desci do ônibus seguida pelo seu fitar e me apressei em entrar no metro, peguei a linha mais movimentada não sei nem para onde, não chequei os mapas. Quis ser não eu, parte da massa, a massa, a massa empurrando-se porta adentro, porta a fora. A massa trocando de linhas, eu no fluxo. Um rio de gente, escada acima, escada abaixo. Trocando de linha de novo. E aconteceu que já não tinha mais massa. E já era quase hora do ônibus que me traria de volta para cá. E eu estava na estação certa quando me lembrei que havia o tal do ônibus, que me levaria a um vôo. E às ovelhas e pastagens e meu namoradinho adolescente me esperando para ver um filme ruim numa sala de cinema desconfortável numa cidade que dorme depois das sete.
Olhei o relógio, ajeitei a mochila nas costa, tinha que apressar o passo. Pensei ainda uma vez no contorno da boca da moça indiana, em Cabiria e em você. Fiz uma nota mental na falta de papel e caneta: contar ao Marcio dessa moça! E me lembrei de mim, outra vez. Mas já era tarde para novas multidões. Aquela voz a repetir: mind the gap, mind the gap….
Beijos
Ana
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