Eu te Amo

Confesso, surpreendo-me com eu te amo. Invade-me uma inquietação imensa, a vontade maior que o mundo de distâncias menores que um ponto que logo passa. E vem essa vontade de mim mesma. Se ele me ama, eu me amo mais e talvez seja o inverso também verdadeiro. Se ele me ama, eu tenho energia para corridas, eu tenho um sol dentro da boca em sorrisos para todas as pessoas. Bons dias são bons, e tardes e até mesmo as noites em que a taça de vinho repousa na cabeceira da cama ao som de boa música e minhas mãos -essas enguias traiçoeiras – escorregam sem querer pela pele em direção baixo ventre. Se ele me ama não existe solidão que se sinta, não, há outras coisas a serem percebidas, outras cores e sons e novas palavras que eu nunca usei para nós dois, reveladas num vocabulário ainda sem tradução formal. Eu te amo causa-me suspiro, dislexia e mímica.

Enfim eu te amo me explode em ânimo e frescor. E por dias me vem essa sede tamanha de vida, de sonos curtos e horas alongadas. De verbos pras tantas coisas que finalmente podem ser ditas, mas, inferno!, não há vocábulos que traduzam essa sensação de alegria, desprendimento, movimento, êxtase e segredo. Esse querer, esse querer logo, agora. Esse querer então converter o amor-palavra, o amor-pensamento em um amor química que não nos cabe. Não ainda.

Não, não nos cabe, ainda, esse amor tradicional. Amor com hora marcada. Amor desculpa esfarrapada, balela. Eu não saberia amá-lo esse amor cheio de regras que as pessoas amam. Pergunto-me, às vezes, qual será o amor que ele reconhece, o que espera. Se eu te amo for todo amor, me basta. Do amor dele, eu quero a surpresa, o oculto, o que eu, tola, jamais poderia contar em histórias.

Porque eu não sei nada de nada desse homem que eu amo. Desse homem que me ama. E amá-lo d’outra maneira que não essa, que não o sonho, a vereda, que não na impossibilidade, na distância, na ausência, no descuido e na casualidade que poderia tornar tudo simples ou pôr tudo a perder; amá-lo, ou melhor, viver o amor, finalmente, seria o mesmo que aceitar ter-me os olhos vendados e caminhar uma estrada desconhecida tentando, apavorada, acostumar-me com a sensação de ter os pés tocando o chão, a textura do chão. Deixar-me cair, com gosto, as asas. Não ser mais o cupim em volta da lâmpada e chafurdar na rigidez de um amor concreto como madeira de lei e me fartar. Viver tal amor seria declinar do amor revisto e aperfeiçoado para amar um amor falível em construção.

Três palavras, tantos significados. Eu te amo a oceanos de distância e eu divagando sobre eu te amo lado a lado.

Eu te amo de longe, amor idealizado.
De perto, um mistério a ser desvendado.

Um o desejo, o outro o tato.

A certeza de que não há amor que não seja tanto gozo quanto medo.

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