Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de June, 2006

Duralex

Começou então a sentir uma náusea que nunca havia sentido, algo que lhe dava a sensação de que o estômago tinha entrado em erupção, ou pior, que todas as suas vísceras se rebelavam dentro do corpo e, amotinadas, esbatiam-se contra os ossos, tentavam romper-lhe os músculos. Sentia dor e a dor era uma dor complexa e ao mesmo tempo singular; para cada milímetro de tecido, uma dor aguda e celular.

Caminhou cambaleante até o banheiro, respirou pela boca profundamente e mirou-se no espelho; no lugar dos olhos rubis de vermelho ardente, a lava, a lava. As veias da testa em alto relevo. Um filete marrom correndo pelas narinas como corre a regra de moça nova. Inda sou nova. Abriu a torneira de mãos em concha, borrou a maquiagem já borrada. Inda sou nova para tanto suor e para tanta lágrima.

Contraiu-se toda, achou que ia vomitar, mas não vomitou. Retornou a sala acomodando-se no sofá. Tirou os sapatos e riu-se de suas unhas pintadas de preto. Sim, tem razão. É sexy.

E foi rindo que lhe vieram os engulhos. Contrações como as de um parto que errasse o caminho e decidisse sair pela boca. Algo latejava na garganta. Quis proteger o carpete novo. Vomitou nas mãos. E tateou algo macio, quente e vivo.

Como duas línguas sobressalentes, esticadas a ponto de quase romperem, pendiam-lhe as artérias boca a fora e entre suas palmas pulsava seu coração. Parecia maior. Bateu demais. Parecia mais frágil. Amou demais.

Observava. Tumtum. Tumtum. Acariciava. Tumtum.Tumtum. Alentava o pobre do seu coração. Ding dong. Era a campainha.

Alçou os olhos em busca das horas e era tanta espera que mesmo que as encontrasse essa era uma conta que já estava para sempre perdida. A espera já não podia ser traduzida por números. A espera se estampava nos cabelos brancos que antes não existiam, nas rugas suaves. E nas palavras. Enfim, ele chegara.

Achou que era melhor engolir o coração de volta, ajeitar o cabelo e retocar a maquiagem. Pulso, pulso. E um pensamento recorrente: já amou demais.

Campainha.

Suspirou para tomar coragem. Campainha. Fechou os olhos. Campainha, campainha. Cravou os dentes em uma das artérias e um esguicho rubro espirrou pelos ares convertendo-se em joaninhas e borboletas multicor, e a campainha e a campainha e a primeira nota de um acordeom alegre, um ding, um tango, e dong e toda o a mobília coberta por insetos delicados e formigas doceiras que vinham das falhas no rejunte dos azulejos da cozinha. Campainha, campainha, quantos baixos tem na campainha?

Quis dançar, mas já não lhe respondiam as pernas, as células já tinham se esqueceram dela, da dor dela, e adormeciam. O pulsar em suas mãos, agora, era um quebrar de ondas de uma maré vazante, o mar a se afastar, o mar a lhe levar para longe, longe…

A música cessou. Teve ainda um último segundo para resolver que o som dos passos que partiam eram aplausos e o cair do pano.

Os pulsos penderam, as mãos relaxaram e aconteceu que o coração dela escorreu delicadamente por entre seus dedos e espatifou-se pelo chão em muitos, milhares de caquinhos inócuos.

Assim, como se quebra um prato Duralex qualquer.

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Correspondência Violada

Marcio,

hoje eu descobri que não é que a gente sempre se perca; agente só aumenta a coleção de lugares secretos.

Precisava dividir isso com você.

Beijos
Ana

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