Drunk-psy-romantic-freak-love-o-matic
Lógico que eu já entendi que o lance acabou, Chef! Mas não acho que seja justo acabar assim, na covardia. Sabe por quê? Porque mulher é um bicho muito, mas muito besta. Eu disse besta, não burro.
Cabeça de mulher funciona assim: o anjo diz para se conformar e sair de testa erguida e o diabinho manda correr atrás porque já não há mais nada a perder mesmo. Daí, a gente fica uns três ou quatro dias dando de gostosa na frente de todo mundo, dizendo que valeu porque foi bom enquanto durou, dizendo sei lá quando perguntam de você, dando pinta na praia, se esfalfando na academia, trabalhando com sorriso na cara em cima do salto agulha, mas quando chega em casa coloca o pijama de ursinho, assiste à novela, come uma caixa inteira de bombom Garoto, chora um pouquinho e fica vigiando o telefone. Fica torcendo, rezando, faz simpatia pro bicho tocar e ele não toca. E ele não toca um dia, e não toca no dia seguinte. No terceiro dia a gente se olha no espelho e se acha três quilos mais gorda, implica com o cabelo, encrenca com as rugas. E nem assim o telefone toca.
No quarto dia a gente está de robe, descabelada, com uma tigela de pipoca com queijo parmesão no colo vendo Um lugar chamado Notting Hill pela décima vez. Ou a Insustentável Leveza do Ser. Com máscara de abacate na cara, deprimida, fitando com um olhar perdido as pantufas da Hello Kitty no pé. No quarto dia, a gente lembra do celular depois de beber três cervejas e um Bourbon e estar bêbada o suficiente para ter desculpas. Depois de ouvir Portishead, Índia Arie, ou Roberto Carlos até querer cortar os pulsos, a gente começa a achar que não, que o cara deve ter estado ocupado, cansado, ficou doente, perdeu meu numero e começa a discar, mas desiste porque não sabe direito o que dizer. Depois de uma certa idade fica patético dizer que ligou só para dizer oi. É, o cara vai me achar maluca se eu ligar para dizer oi.
No quarto dia, abre-se então a quinta cerveja, e não se disca, melhor elaborar, punheta-se uma mensagem de texto. E no quarto dia toda mulher está mais apaixonada, pedinte, humilhada, desolada, carente. No quarto dia a gente acha que ama, a gente acha que seria tão bom se amasse, a gente quer amar, mas que caralho! Por que nunca dá certo? O que eu fiz de errado? O que ela tem que eu não tenho? E a tal da mensagem sai ébria e truncada, sai drunk-psy-romantic-freak-love. E cheias de sono, dormimos aliviadas achando que pela manhã vai ter um “Bom dia, gostosa! Você pirou?” na telinha. Ou que a gente vai ser acordada no meio da noite pela campainha. A gente quer o melhor, mas pode ser que venha também um golpe de misericórdia, um sai do meu pé chulé, aquele bom e velho “o problema não é você, sou eu” ou “você merece coisa melhor”. Aquele tabefe na cara que a gente precisa para sacudir a cabeça e acordar. Porque – eu já disse isso – gente percebe o pé na bunda vindo, Chef, mas tem que levar para acreditar!
E o telefone não toca.
É isso Chef. Eu não sou tão boa assim, certo? Eu tento, eu juro que tento. Minha razão sabe bonitinho que eu não posso lhe pedir nada, que você é noivo e vai voltar para Austrália, casar e ter oito filhos gordos. Minha razão me diz que foi bom enquanto durou e cita Vinicius. Ok. Mas, por outro lado, tudo que foi dito e que foi feito, fica martelando na cabeça. Eu não quero acreditar que foi tudo mentira ou momento. Que, de repente, você descurtiu do nada. A razão diz que para curtir e descurtir não é preciso ter razão, que a atração tem mesmo um interruptor temperamental. Mas, mulherzinha que sou, quero saber o por que ainda que nem exista um porquê. Bem que você podia criar um. Eu fico inventando que você esta confuso. Mulher sempre acha de inventar que o cara está confuso, embora a gente saiba muito bem que homem é assim, corre sem nem saber porque que está correndo. A gente sabe. Aceitar é que é foda.
Pois é, Chef. Eu tive meu momento psy. E escrevi aquelas bobagens. E fiquei com uma canção velha do George Michael torturando a minha cabeça. É Chef, tem coisas que eu não quero aprender. E você tinha que me ensinar. Eu nunca quis aprender essa coisa de dormir agarrada. De acordar do lado. De acostumar com ronco.
Ensina-me, agora então, o que é que eu faço com essa cama de solteiro que, de repente, ficou grande demais sem seu corpo enroscado de mim.
(Turnberry, 19/06/2006)
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