Copa-cozinha
E tudo com aquela aparência teatral. Ele finge que não, que esta tudo normal. Eu finjo que não estou ligando. O breakfast-sex sai assim, meio continental. Acontece travado, embalado a vácuo. Fazemos um sexo tetra-pak, ele goza um orgasmo burocrático. Eu não finjo. Ele abre um pouco os lábios num riso piedoso e amarelado, mexe nos meus cabelos e diz que a gente só tem vinte minutos. Empurra-me para o chuveiro ainda frio, olha com pena pros meus mamilos e faz a barba. Ele me beija com pasta de dente na boca.
Volta para quarto e eu já vestida, a cama feita. Coloca seu perfume nele mesmo, em mim. Injusto. Carimba meu faro e roupas com a sua marca depois sobe o zíper das calcas. Olha-me o tempo de um reclame pelo espelho, gel no cabelo, cadarço de sapato, celular, carteira, chave do carro. Passa na frente, eu depois, bato o portão.
O Chef dirige em silêncio. Talvez pense que ferveu demais, que foi muito tempero ou muito fermento. Eu sei, Chef, eu sei. Eu sou sim uma pimenta muito ardida. Eu olho de esgueira e sei que passou do ponto; não Chef não passou. Solou. Queimou por fora, ficou cru por dentro. Não se culpe, paixão é assim, quase sempre.
A porta de casa, da minha. Minha casa? Nem isso. Desse lugar aí onde eu moro. Enfim a porta do carro, minha mão de leve no contorno da sua face, me deseja um dia divertido, a gente se fala mais tarde. Um beijo octogenário e delicado. Resisto. Sorrio dorida, mas não suspiro. Até.
O Chef parte, me partindo. O Chef não sabe do meu paladar apurado que reconhece fácil o sabor de mazelas repetidas.
O Chef me beija um beijo doce com gosto de despedida e me deixa sentada na soleira da porta, fumando um cigarro amassado. Vai e me deixa morta de fome com um prato sujo, raspado, lambido, vazio, nas mãos.
( Turnberry, 29/07/2006)
© 2006, Ana Mangeon. All rights reserved.
No commentsNo comments yet. Be the first.
Leave a reply