Transmutação
Há de a roupa escorregar suavemente revelando ombros , peitos e cinturas. Há de sua língua percorrer-me as curvas e os complexos. Hei de despir-me dos panos e dos medos. Hei de despir-lhe de ontem, de antigos cheiros, dos últimos anos.
Estou grávida de você e não é matéria o que eu gesto mas também é vida.
Já lhe abortei seis vezes e meia em sangue e palavra. Continuo fecunda. Quero lhe conceber e lhe alimentar de poesia.
Havemos de perder a cabeça e largar a pele nos lençóis e sob as unhas. Sublimar no vapor do suor já tão destilado. Havemos de nos expôr a alma escarnada. Eu a minha, você a sua. E depois negar a existência de almas.
Eu choro de alegria e de amor porque o amor me liberta. E me revigora. Já lhe amei muito em corpos de quem não lembro o nome. Muitos. Em leitos sem código postal. Vários. Em bocas de bom e mau latim. Com desejo e sem. Com paixão e sem. Sempre sem sabor.
Hei de transmutar.
Eu sempre tão meio-amarga, na sua boca hei de desfazer-me em torrões de açúcar.
Dissolver-me na sua saliva, contaminar seu sangue e desaparecer.
E há de parecer fuga, mas eu estarei n’algum lugar em você.
E há de parecer com a morte, mas será somente um fim.
© 2006, Ana Mangeon. All rights reserved.
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