Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de August, 2006

Circle Line

Você sabe
que todos
os meus
caminhos
começam
e terminam
em você…

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Correspondência Violada

Querido Marcio,

É com a alma em festa que recebo suas palavras com essa certeza de que jamais deveríamos nos habituar a nada, mas uma vez que lho fazemos , jamais deveríamos abdicar dos bons hábitos implementados. Sua carta me trouxe um sopro de candura para alma .

Ultimamente, tenho tido essa sensação de estar, enfim, me permitindo amadurecer. E quando você fala desse mau jeito para novidades, bem, tenho a impressão de que talvez você esteja passando pelo mesmo processo. Não é que as novidades não existam ou se escondam. E nem é também que nós não as percebamos. O que nos falta é aquela velha excitação, o novo vem, o coração mantém o compasso e diz, ok mais algo com que se acostumar. Sinto-me discretamente ranzinza enquanto mantenho as engrenagens lubrificadas e funcionando. Às vezes acho que falta aquela chave de fenda do cartoon, aquela que faz as molas se estirarem e as roldanas pipocarem pelos ares (quantas vezes eu já não destrambelhei a maquina, não?). Outras a chave de boca para os apertos que mantém tudo no lugar. E outras eu acho que a maquina não me obedece mais.

Você fala dessas coisas de se apaixonar. Apaixonar-me de novo – tenho que confessar- foi uma novidade. Boa e ruim. Delicada e dolorosa. Ah, Marcio, eu não sei lidar com a paixão. Tão mais confortável amar o meu mesmo amor de sempre e sonhá-lo com os mesmos sonhos todos os dias só que com luzes diferentes…Pedi-lhe que não me amasse e deu-se que ele obedeceu. E no dia em que voltou para os seus, lá longe, me deu um ultimo sorriso e foi só. E eu entendi que não é que eu não tenha raízes, Marcio. Eu tenho e elas tentam se fixar. São a terra e os corações que não me querem hospedar.

(Penso na minha casa nova. Meus livros e um aquário redondo. Um peixinho dourado que não conheço, mas já batizei de Boêmio. Uma tentativa de burlar a solidão e o ‘no pets allowed’).

Pensei em você ontem quando voltava de minha caminhada dominical até o castelo. Passava das duas e meia, o sol queimava a minha nuca porque aqui a gente nuca dá o credito devido ao calor. Ouvia uma canção do acústico do Cardigans chamada ‘you?re the storm’. Reparei num canteiro de girassóis em flor no qual eu nunca tinha reparado.

Colhi sementes e com elas fiz um ungüento para amenizar as mazelas de nossas almas.

Um beijo saudoso
Ana

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Julio e Marta

Ficou olhando discretamente, a cabeça apoiada nas mãos pousadas sobre o travesseiro. O suor ainda cintilava na testa dela e quando acabou de amarrar os sapatos percebeu que ele tinha preparado o lado direito da cama para ela se deitar. Sorriu.

- Já vai?

Sacudiu a cabeça, de leve, positivamente.

- Você é uma puta, Martha…
-Do pior tipo, puta apaixonada.

Ele não insistiu.

E assim preservaram a memória sem estragar tudo acordando lado a lado. Sem se dar a chance de procurar as palavras justas quando nem mesmo havia necessidade de palavras. Tudo já tinha sido dito pelo silencio. A interpretação há tempos já se tinha colocado muito acima do discurso.

Julio abriu a porta para Martha. Martha abraçou Julio apertado.

Sincronizaram um acender de cigarros e o primeiro trago.

Ambos sabiam perfeitamente que acabou.

Julio ia pensar e dormir. Martha ia chorar.

E aquelas seis semanas de incêndio seriam esquecidas completamente quando a fumaça, enfim, se dissipasse pelo ar caso tivessem tido a maior sorte de queimaduras leves que não lhes deixassem nenhuma cicatriz profunda.

Entretanto,sabe-se que, querendo ou não, toda paixão há que fustigar um tanto a alma para ser paixão.

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Carta para Dodô

Dodô,

Eu tenho que lhe segredar uma coisa. Eu escolho as palavras. Nada do que eu lhe escrevo é espontâneo. Nenhuma de declaração de amor foi natural.

O processo não é complicado, pois o tempo cuidou de fazer-me aprimorar a técnica. Na verdade é bastante simples: eu vomito sentimentos banais no papel. Rimas pobres, palavras de baixo calão, sexualidades sem lirismo. Depois, eu lapido. Penso em cada uma delas e substituo por aquelas que podem lhe anuviar os olhos e sussurrar nos ouvidos.

Ah, Dodô, a poesia não é sincera. A poesia não diz o que quer dizer, mas o que se quer fazer ouvir. A poesia é falsa. A poesia é tola. Eu sou falsa e tolo é você.

A poesia lhe rouba de mim, pois a ela é que você quer bem. Eu sinto ciúme do meu verso. E sentir ciúme do meu verso é entender que a persona se sobrepôs definitivamente à pessoa. Talvez nunca lhe tenha ocorrido, mas quando você me diz que me ama eu entendo que você se apaixonou pelo meu eu-lírico. E quando eu lhe escrevo que eu lhe amo é o meu eu-lírico quem se declara.

Acontece, que eu, Marina, também lhe amo. E brado em olhares e suspiros que você não pode perceber, pois você precisa da certeza do amor. Satisfaço-lhe passando atestados em verbos e lacrimejo depois minhas sinceridades no meu travesseiro.

A palavra trabalhada, Dodô, é placebo.

Será que um dia você vai perceber que o amor é uma linguagem não-verbal?

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Água Viva

Quando me joguei no mundo, amor,
Não buscava nem dinheiro, nem liberdade.
Não busca conhecimento.
Não buscava novidade.
Quando o mundo me chamou
-e eu fui-
eu fui procurar sua saudade.

Quando eu me joguei no mundo, amor,
Joguei-me, a deriva no mar,
Para dar-lhe a chance de escolher me içar.
Mas uma corrente me puxou para longe
de seus anzóis e puçás.

Pensei, quiçá viro sereia:
e cantei, cantei
Cantei sete mil canções sem som
Em bolhas que choravam em tons bemóis.
Durante as ressacas no que quebra mar.

Virei, foi mesmo, água-viva.
Com meus tentáculos
bailando preguiçosos e delicados.
Flutuando sem raiz, trazida de volta.
Buscando suas pernas.
Suas canelas
onde me enroscar. Agarrar-me

E deixar
a queimadura profunda e inflamada
para que todos os ungüentos do mundo
curem.

Um amor corrosivo, de longe, cultivado
que acaricie, beije a sua tez temperada.

Que abrase a sua pele, enlevado,
mas que arda só em mim.

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