Julio e Marta

Ficou olhando discretamente, a cabeça apoiada nas mãos pousadas sobre o travesseiro. O suor ainda cintilava na testa dela e quando acabou de amarrar os sapatos percebeu que ele tinha preparado o lado direito da cama para ela se deitar. Sorriu.

- Já vai?

Sacudiu a cabeça, de leve, positivamente.

- Você é uma puta, Martha…
-Do pior tipo, puta apaixonada.

Ele não insistiu.

E assim preservaram a memória sem estragar tudo acordando lado a lado. Sem se dar a chance de procurar as palavras justas quando nem mesmo havia necessidade de palavras. Tudo já tinha sido dito pelo silencio. A interpretação há tempos já se tinha colocado muito acima do discurso.

Julio abriu a porta para Martha. Martha abraçou Julio apertado.

Sincronizaram um acender de cigarros e o primeiro trago.

Ambos sabiam perfeitamente que acabou.

Julio ia pensar e dormir. Martha ia chorar.

E aquelas seis semanas de incêndio seriam esquecidas completamente quando a fumaça, enfim, se dissipasse pelo ar caso tivessem tido a maior sorte de queimaduras leves que não lhes deixassem nenhuma cicatriz profunda.

Entretanto,sabe-se que, querendo ou não, toda paixão há que fustigar um tanto a alma para ser paixão.

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