Correspondência Violada
Querido Marcio,
É com a alma em festa que recebo suas palavras com essa certeza de que jamais deveríamos nos habituar a nada, mas uma vez que lho fazemos , jamais deveríamos abdicar dos bons hábitos implementados. Sua carta me trouxe um sopro de candura para alma .
Ultimamente, tenho tido essa sensação de estar, enfim, me permitindo amadurecer. E quando você fala desse mau jeito para novidades, bem, tenho a impressão de que talvez você esteja passando pelo mesmo processo. Não é que as novidades não existam ou se escondam. E nem é também que nós não as percebamos. O que nos falta é aquela velha excitação, o novo vem, o coração mantém o compasso e diz, ok mais algo com que se acostumar. Sinto-me discretamente ranzinza enquanto mantenho as engrenagens lubrificadas e funcionando. Às vezes acho que falta aquela chave de fenda do cartoon, aquela que faz as molas se estirarem e as roldanas pipocarem pelos ares (quantas vezes eu já não destrambelhei a maquina, não?). Outras a chave de boca para os apertos que mantém tudo no lugar. E outras eu acho que a maquina não me obedece mais.
Você fala dessas coisas de se apaixonar. Apaixonar-me de novo – tenho que confessar- foi uma novidade. Boa e ruim. Delicada e dolorosa. Ah, Marcio, eu não sei lidar com a paixão. Tão mais confortável amar o meu mesmo amor de sempre e sonhá-lo com os mesmos sonhos todos os dias só que com luzes diferentes…Pedi-lhe que não me amasse e deu-se que ele obedeceu. E no dia em que voltou para os seus, lá longe, me deu um ultimo sorriso e foi só. E eu entendi que não é que eu não tenha raízes, Marcio. Eu tenho e elas tentam se fixar. São a terra e os corações que não me querem hospedar.
(Penso na minha casa nova. Meus livros e um aquário redondo. Um peixinho dourado que não conheço, mas já batizei de Boêmio. Uma tentativa de burlar a solidão e o ‘no pets allowed’).
Pensei em você ontem quando voltava de minha caminhada dominical até o castelo. Passava das duas e meia, o sol queimava a minha nuca porque aqui a gente nuca dá o credito devido ao calor. Ouvia uma canção do acústico do Cardigans chamada ‘you?re the storm’. Reparei num canteiro de girassóis em flor no qual eu nunca tinha reparado.
Colhi sementes e com elas fiz um ungüento para amenizar as mazelas de nossas almas.
Um beijo saudoso
Ana
© 2006, Ana Mangeon. All rights reserved.
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