O jeito como ele segura o cigarro…

Como continuar contando infinitamente as horas, se algo no meu peito diz que você, como sempre, nunca vem? Como se seu nome bordado no meu lençol apaga lentamente do atrito de peles que não são a sua e das muitas lavagens para arrancar do algodão perfumes que nem mesmo bem combinados nunca serão o seu.? Até quando essa voz que vocifera amor terá que ser calada nessas cartas sem destinatário? Até quando terei que alimentar o romantismo de estranhos com as delicadezas que compus somente pra lhe dar no dia que você chegar?

Você nunca chega. Eu canso, mas a poesia não se desanima.

Apelo para as canções. E lembranças. E pouco a pouco as canções doem mais e as lembranças fazem menos sentido. Já não sou capaz de descrever seu beijo, nem a textura de suas mãos, nem dos cabelos. Não sei mais o limite entre o real e o imaginário, amor. Faz tanto tempo, um tempo que já não se conta em dias nem em horas. Uma contagem insana e nova. Meu espírito amadurece um ano por mês e meu corpo, ao contrario, parece rejuvenescer um mês a cada quinze dias.

Sinto medo que um belo dia você passe por mim e não me reconheça como tantos outros que lembram meu nome e minhas histórias, mas já não tem a menor idéia de quem eu sou. Faço fotografias periódicas para que você me perceba de um jeito mais fiel a aquilo que eu me tornei, mas não sei se ajuda. A embalagem não revela o sabor novidadeiro do conteúdo. Esmero-me nos teasers, mas não mais sei aquilo que lhe chama a atenção.

Tenho certeza que essa mulher que eu sou seria uma mulher que você amaria por uma vida. Mas eu não sei quem é o homem que você se tornou. Talvez o que eu conheci me amasse hoje o que não pode amar outrora. Mas esse de agora, quem é? O que quer? Talvez o homem que eu espero se tenha afogado num outro homem novo que me possa também aprazer. Ou não.

Não posso negar a confusão que me atormenta nesse dias de vento e chuva, essa sensação entorpecente de amar alguém muito e completamente sem saber se ele existe ou foi tragado por algum alguém completamente novo que me beijaria simplesmente na face sem enfiar as mãos nos meus cabelos, sem abraços longos e apertados, aqueles dois beijos estalados na frieza de uma bochecha de mármore ou qualquer outra pedra, palavras faltando em silêncios constrangedores.

Uma espinha de peixe atravessada na garganta. Um eu te amo engasgado que me faça faltar o ar. Eu te amo, caramba, eu te amo. Uma voz titubeante que não saia. O coração descompassado querendo enfartar, o pensamento: será? Será?

Meu expresso sem açúcar, seu café americano.
Pequenas intimidades pacificadoras que coloquem tudo em seu devido lugar.

Sim, meu anjo, eu admito. Eu sonho reencontros.
Pena que a gente nunca se esbarre por aí.

© 2006, ana. All rights reserved.

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