Arquivos de October, 2006
Alegria e afins
Na porta aberta, o até mais ver dito com certa candura e sono, uma prece para algum Deus em que eu não creio: dá-me então diversas coisas aprazíveis, tantas, a cada segundo, umas depois da outras. Sorrisos novos em cada uma das novas bocas e lábios de sabores exóticos. Mãos de linhas desconhecidas para inesperados afagos ou se não for possível, dê-me infinitos pares de luvas em surpreendentes tecidos. Cabelos naturais, calvas e perucas. Olhos de todas as cores e lentes de contato. Vozes e falsetes. Pés, meias e sapatos. Dê-me algo bom que eu ganhe e se sublime a cada 15 segundos, mas não a lacuna pacificadora da não-alegria.
A alegria nos enerva pois não a sabemos perder. Inútil querer lacrá-la em nosso corpo, num outro, em coisas. A alegria sabe caminhos que nós não podemos enxergar. Chega de assalto e se vai na surdina. A alegria é livre e resta mais em quem não tenta encarcerá-la. A alegria deve fluir: as gotas de um rio correndo no peito, a água que escorre para dar a vez a uma nova. Vezes um veio, vezes uma inundação.
O até mais ver nunca se sabe quando. O beijo na testa dura não mais que centésimos de segundo, mas me inunda de uma felicidade restauradora e instantânea. E a porta bate silenciosa e sem a possibilidade de um último olhar sobre o ombro. Parto carregando um sorriso já saudoso porém não nostálgico. Liberto as borboletas do meu estômago com um suspiro.
Pobre de quem chora as alegrias perdidas em vez de se contentar inda mais por ter estado alegre.
Coitado de quem desperdiça seu tempo se lamentando. Olhando o ontem. Chorando o que foi.
A felicidade acontece sempre agora.
E não nos permite distrações porque é sempre muito efêmera.