Archive for November, 2006
Correspondência Violada
Marcio querido,
As cartas rareiam cada vez mais apesar de tanto a ser dito. Não ando conseguindo, amigo. Vejo dez milhões de coisas das quais eu queria que você soubesse. Componho todos os dias um curta que eu nunca filmo mas que está sempre muito claro na minha mente. Londres tem cenas bonitas que os londrinos não se dão conta. Fico pensando quem serão os londrinos e se eles existem. Londrinos deveriam ser ingleses, não? Não esbarro com muitos, pelo menos não com o estereotipo do inglês. Certamente são muitos os londrinos que meus olhos não reconhecem porque eu ainda procuro por peles pálidas, olhos claros. Pessoas que falem com ovos na boca. O londrino, acho que é um inglês multicor. Pardo de olhos puxados, negro de cabelo liso, branco de carapinha, sei lá. Mas sei que essa confusão me faz sentir em casa.
Eu gosto das escadas rolantes do metrô. Não de qualquer uma. Gosto daquelas que vão bem auto cheias de anúncios nas laterais. Coloco-me normalmente à direita – o lado dos que não tem pressa -e fico escolhendo os musicais que eu um dia vou assistir. Decidi que o primeiro há de ser Porgy and Bess, curiosamente o mais caro em cartaz. Só descobri depois que já estava decidido e esse tipo de decisão não tem volta. Eu posso ficar um mês sem fumar e ir. Cigarros custam caro demais de qualquer jeito. E me dão asma. Mas como eu ia dizendo, gosto das escadas que vão bem lá no alto.
Ontem a moça oriental estava cantando em Picadilly Circus. Digo oriental porque não sei de onde ela é. Mas sei que ela canta muito delicado na sua língua natal, tocando um violão de notas simples que combina com sua voz. Eu não entendo nada mas sempre tenho vontade de chorar um choro de cócegas. Fico inventando o que ela canta. Invento que são canções de um amor feliz porque ela parece muito feliz quando canta. Ou canções que falem de primaveras. Sempre passo e jogo uma moeda de 50 pences e fico tentando captar algum detalhe que tenha me escapado. Mas o turbilhão de gente acaba por me empurrar para o lado de fora e eu tenho que tomar cuidado para não acabar na rua em vez de trocar de linha, e ir para casa.
Estou vivendo em Queens Park, que não é o nome do bairro e sim da estação mais próxima. Nomes de bairro a gente só descobre se tiver que olhar no mapa por alguma razão. O bairro se chama West Kilburn mas esse é um nome que capaz que nem o correio saiba. Tudo se encontra pesquisando pelo código postal. Eu moro em um bedsit, numa conversão vitoriana. Soa vulgar mas o lugar não é dos piores. Um quarto com uma cama de viúvo, uma pia e um fogão de duas bocas com um forno que não funciona. Banheiro comum para mais 10 bedsits como o meu. Londres faz a gente aprender a se sujeitar ao pouco espaço e aos cabelos de desconhecidos no chuveiro. Coloquei um lençol cor de café na cama e pufes no chão. Falta cor nas paredes, por isso encomendei algo bem colorido a um amigo bom de traços.
Minha janela tem vista para um parque bonito apesar das arvores peladas anunciando o inverno. E no domingo tem crianças barulhentas e esquilos. Bem, esquilos têm todo dia, em toda parte. Muitos pais solteiros desfilando com seus carrinhos e flertando com as moças que fazem exercício.
O inverno chega sorrateiro. Quando a gente se dá conta já se está enrolando em cachecóis de todas as cores para quebrar o preto tradicional dos casacos. E botas. Hoje fez 10 graus, o que não é mal. Ainda não preciso de luvas.
As folhas lá fora se balançam lentamente equilibrando-se, equilibrando-se… até que, enfim, caem e pousam no calçamento para serem pisoteadas. Ou no ombro da menina loura de chapéu azul turquesa.
Bem, já é tarde. Melhor fechar a janela e deixar o frio do mundo do lado de fora. E fazer um chá quentinho para amornar a alma aqui dentro.
Muitos beijos saudosos,
Ana