Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de December, 2006

Romance de Fração de Segundos

Porque sim, existe essa busca incessante pelo contentamento advindo desse conforto que dá o braço contornando ombro numa caminhada, o morno pacificador da pele submersa em tantas lãs e gorros na noite fria. A pele que ainda que escondida e embalada se sabe existir e se pode bem imaginar o olor e a textura. Uma alegria fagueira, sem compromisso. Efêmera. E depois a lembrança dessa alegria a tornar-se, então, uma nova alegria que se tornará uma nova alegria. Ad eternum.

E eis que se dá então o braço, e dá também a idéia da pele. E o olor da pele. E a textura da pele na revelação dos zíperes . E a descoberta do aconchego da pele e ao mesmo tempo da desimportancia da pele. O belo reside nas coisas que vão alem da ponta dos dedos.

Há que se envolver no jogo, no jogo que tantas vezes nem se percebe que se está jogando. Há que sorver não salivas nem suores. Tampouco outras secreções. Há que se beber do olhar observador e tentar-lhe captar a leitura, o que o olho registra e torna-se então imagem e memória. A pupila que se contrai e depois se expande, pálpebras arregaladas ou cadentes e cílios. Há que não se saber mas querer saber o que de você percebe o outro e criar idéias, temores e paranóias discretas que não se pode dividir jamais. O que o outro pensa? O que o outro quer?O que o outro sente?

Há que se observar a cadencia da respiração e intuir palpitações. Se não houver palpitações há se que desistir ou inventar, porque o processo de conquistar e ser conquistado requer por vezes um pouco de engenho. Não me entenda mal quando falo de conquistar. Certas pessoas têm essa concepção errônea e possessiva de conquista. Falo de notar e ser notado, ainda que não exista desejo, nem flerte. Falo daquele olhar que se prolonga estranhamente por um segundo e cria uma estampa no pensamento que não se consegue apagar ou esquecer. Aquela efígie, a foto em close-up, o detalhe magnífico que não se dissipa não importam o movimento, o delírio ou as paisagens.

O bonito não esta em amar em desespero, se apaixonar infinitamente, em querer essas exclusividade estúpida e utópica do amor eterno. O bonito se oculta na hora em que você distraído contempla um ponto no infinito e se intui sendo fitado e está sendo fitado e resolve desafiar o olhar correspondendo com o sorriso. E quem lhe mira em vez de envergonhar-se e pensar em cuidar dos pés, apenas retribui descolando os lábios lentamente. A alegria instantanea do sorriso permutado que nos deveria bastar para preencher a alma com regozijo delirante. O momento onde por um átimo o coração dispara e nos sentimos cheios de uma estima entorpecente por nós mesmos. Isso também é paixão, e também desejo na sua forma essencial de sentimento. Isso é amor: o amor próprio.

E essa seria uma historia de amor intransitiva – o amor é e está mesmo que não nos seja este o momento de manipulá-lo e transformá-lo em evento. E seriamos todos mais apaziguados não tivéssemos sempre essa ansiedade tamanha de querer mais do que nos é ofertado. De querer dar forma tátil às coisas que são simples por serem intangíveis.

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Das coisa que se pode (e não pode) ter

De noticias devo dizer, amor, que não era previsto mas nevou; assim me contaram. Não vi. Não vi mas suspeitei caminhando sobre as calcadas brancas, uma película delicada e reluzente sobre todas as coisas, não, não todas, não sobre mim. Ando meio opaca, você me conhece. Faço bico quando não me posso permitir fazer-me as vontades. Me olho no espelho e digo que resisto inda mais uma estação. Em setembro começo a fazer as malas, acho.

Meus planos mudam a cada dez segundos, me acusam de ser indecisa, inconstante. Mas eu sou somente livre. Livre para mudar de opinião, para tem inúmeras vontades ou não ter nenhuma. Eu rio de quem me aponta do dedo na cara e diz : você não sabe o que quer. Eu sei, mas é difícil administrar as tantas coisas que quero. Admito, organização nunca foi o meu forte.

Eu quero ir morar na Italia, e na Espanha e em Malta. Visitar a China, comprar uma bicicleta. Eu quero assistir uma opera. (Acredita que eu nunca assisti uma opera????) Eu quero a minha voz afinada de volta. Eu quero que o verão chegue o logo e uma cortina pesada para o sol das três da manhã. Ir ao cinema! Quero um par de tênis novos. Pintar o cabelo de azul. Fazer as unhas. Três dias num spa. Uma filmadora digital. Escrever um livro, fazer MBA. Fritar panquecas. Churrasco!

Eu quero traçar metas, seguir adiante, fazer carreira. Mas logo depois eu quero virar minha vida do avesso.

Às vezes eu quero dizer a todo mundo “eu te amo”. Às vezes, vai tomar no cu.

Tem horas que eu quero ficar sozinha com meus filmes, discos e livros.

E quando sozinha com meus discos, filmes e livros eu sempre quero estar com você.

05/12/2006

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Mosaico

Essa coisa que falta, esse pedaço
A metade ou um terço
Ou uma molécula
Essa partícula incomoda
Que tanto não encontro em mim
E nem em qualquer lugar.
Que não esta nas ruas,
nas festas
No trem.
Não esta na Tv,
nem nas revistas
Não foi escrita nos livros
Não foi provada pelos cientistas
Nem intuída pelos profetas.

Esse espaço, esse vazio
Essa peça do quebra-cabeça
A gota d’água. O limite
O que falta pra que eu me veja então completa.
Tinha seu nome mas aconteceu que apagou.

E, conformada,
hoje sou quase.
Um bebê prematuro
parido do ventre
do todo que quisera ser.
Sem unhas, careca e sem dentes.
Coração fraco, pulmões sufocados.
Parcial, incompleta.

Sobrevivente após ter-me
Abortado de mim mesma.

Era mais fácil quando havia esperança,
Sonho preenche as lacunas
O sonho é uma cartilagem macia
na falta de matéria para refazer os ossos.

Na sua falta, eu tinha a idéia
Agora, só a vontade de me apaixonar outra vez

O organismo repele,
Na sua falta, não me sou.

Olho-me no espelho
Maquio-me
e entendo:

Quando havia você,
Eu era muito mais eu.

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