Mosaico
Essa coisa que falta, esse pedaço
A metade ou um terço
Ou uma molécula
Essa partícula incomoda
Que tanto não encontro em mim
E nem em qualquer lugar.
Que não esta nas ruas,
nas festas
No trem.
Não esta na Tv,
nem nas revistas
Não foi escrita nos livros
Não foi provada pelos cientistas
Nem intuída pelos profetas.
Esse espaço, esse vazio
Essa peça do quebra-cabeça
A gota d’água. O limite
O que falta pra que eu me veja então completa.
Tinha seu nome mas aconteceu que apagou.
E, conformada,
hoje sou quase.
Um bebê prematuro
parido do ventre
do todo que quisera ser.
Sem unhas, careca e sem dentes.
Coração fraco, pulmões sufocados.
Parcial, incompleta.
Sobrevivente após ter-me
Abortado de mim mesma.
Era mais fácil quando havia esperança,
Sonho preenche as lacunas
O sonho é uma cartilagem macia
na falta de matéria para refazer os ossos.
Na sua falta, eu tinha a idéia
Agora, só a vontade de me apaixonar outra vez
O organismo repele,
Na sua falta, não me sou.
Olho-me no espelho
Maquio-me
e entendo:
Quando havia você,
Eu era muito mais eu.
© 2006 – 2009, Ana Mangeon. All rights reserved.
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