Romance de Fração de Segundos
Porque sim, existe essa busca incessante pelo contentamento advindo desse conforto que dá o braço contornando ombro numa caminhada, o morno pacificador da pele submersa em tantas lãs e gorros na noite fria. A pele que ainda que escondida e embalada se sabe existir e se pode bem imaginar o olor e a textura. Uma alegria fagueira, sem compromisso. Efêmera. E depois a lembrança dessa alegria a tornar-se, então, uma nova alegria que se tornará uma nova alegria. Ad eternum.
E eis que se dá então o braço, e dá também a idéia da pele. E o olor da pele. E a textura da pele na revelação dos zíperes . E a descoberta do aconchego da pele e ao mesmo tempo da desimportancia da pele. O belo reside nas coisas que vão alem da ponta dos dedos.
Há que se envolver no jogo, no jogo que tantas vezes nem se percebe que se está jogando. Há que sorver não salivas nem suores. Tampouco outras secreções. Há que se beber do olhar observador e tentar-lhe captar a leitura, o que o olho registra e torna-se então imagem e memória. A pupila que se contrai e depois se expande, pálpebras arregaladas ou cadentes e cílios. Há que não se saber mas querer saber o que de você percebe o outro e criar idéias, temores e paranóias discretas que não se pode dividir jamais. O que o outro pensa? O que o outro quer?O que o outro sente?
Há que se observar a cadencia da respiração e intuir palpitações. Se não houver palpitações há se que desistir ou inventar, porque o processo de conquistar e ser conquistado requer por vezes um pouco de engenho. Não me entenda mal quando falo de conquistar. Certas pessoas têm essa concepção errônea e possessiva de conquista. Falo de notar e ser notado, ainda que não exista desejo, nem flerte. Falo daquele olhar que se prolonga estranhamente por um segundo e cria uma estampa no pensamento que não se consegue apagar ou esquecer. Aquela efígie, a foto em close-up, o detalhe magnífico que não se dissipa não importam o movimento, o delírio ou as paisagens.
O bonito não esta em amar em desespero, se apaixonar infinitamente, em querer essas exclusividade estúpida e utópica do amor eterno. O bonito se oculta na hora em que você distraído contempla um ponto no infinito e se intui sendo fitado e está sendo fitado e resolve desafiar o olhar correspondendo com o sorriso. E quem lhe mira em vez de envergonhar-se e pensar em cuidar dos pés, apenas retribui descolando os lábios lentamente. A alegria instantanea do sorriso permutado que nos deveria bastar para preencher a alma com regozijo delirante. O momento onde por um átimo o coração dispara e nos sentimos cheios de uma estima entorpecente por nós mesmos. Isso também é paixão, e também desejo na sua forma essencial de sentimento. Isso é amor: o amor próprio.
E essa seria uma historia de amor intransitiva – o amor é e está mesmo que não nos seja este o momento de manipulá-lo e transformá-lo em evento. E seriamos todos mais apaziguados não tivéssemos sempre essa ansiedade tamanha de querer mais do que nos é ofertado. De querer dar forma tátil às coisas que são simples por serem intangíveis.
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