Correspondência Violada
Escrevo para lhe dizer que demorou, mas aconteceu. Ou melhor, está acontecendo, pois não posso negar que a novidade, apesar de ter sua beleza, se desvenda um bocado assustadora. Tateio, Márcio. piso de leve como quem desbrava uma escadaria no escuro sem corrimãos onde se apoiar. Degrau por degrau, juntando os calcanhares um pouco para não tropeçar nos meus próprios passos, outro tanto para ter certeza dos meus pés e não me meter novamente a querer voar.
Inicio a jornada reversa à jornada que eu já fiz com mais leveza e menos comiseração. Mergulhei em mim nesses anos de aventura e solidão tão profundamente, que cria, que estava definitivamente soterrada no meu intimo que eu nunca mais revelaria a ninguém o que eu verdadeiramente sou. A Ana de verdade embalsamada e uma metáfora existencial de mim circulando por aí.
Essa Ana que rodou para lá e para cá, que escreveu, que amou e desamou: uma Ana que eu fui porque queria ser e não porque eu era. Não quero mais. Eu quero existir naturalmente.
Aconteceu Márcio, aconteceu. E por ter acontecido as palavras rareiam apesar do fervilhar das idéias. Eu tenho que aprender a conectar com as coisas e com as pessoas, pois eu que antes nada via alem de minhas próprias entranhas, me deslumbro com margaridas, cheiro de chuva, as uvas do parreiral improvisado de meu pai, o jeito como minha vizinha pendura as toalhas no varal, a prédio da frente ou uma lua gigantesca no céu que agora é somente a lua gigantesca no céu e não o algoz dos meus mal fadados amores.
Nem te conto , meu amigo: eu estava muito bem lá, deitada, nevava muito e alguém gargalhava do lado de fora da minha janela, o que me fez acordar mal humorada, levantar as persianas e o vidro, e vociferar em meio a algumas palavras de baixo calão: que graça tem isso ? Elas chafurdavam na massa branca compactada, uma neve muito bonita e muito rara por aquelas bandas. Perguntei de novo: que graça tem isso? E uma delas enfim olhou para cima, suspendeu o gorro rosa e amarelo com um pompom lilás no topo da cabeça que lhe cobria os cabelos e parte dos olhos e disse mostrando-me todos os dentes num sorriso: você só vai descobrir se sair do seu pijama e vier ver. Depois tomou uma bolada fria na nuca e saiu correndo, patinhando gritando: vem cá seu safado da moléstia.
Naquele dia, eu que vivia ensimesmada fui cuspida para fora de mim. Eu tentei voltar, mas tinha sido algo como uma erupção, ou um parto. Eu queria saber que graça era aquela que matava a moça de rir, eu queria saber a historia da moça. E não me importava mais o que a risada na moça causava em mim.
E foi assim Marcio, que eu entendi que não podia ficar mais lá. Era fácil viver escondida em mim onde o mundo não me tocava e por isso não me afetava. Era fácil escolher viver sozinha por medo de uma solidão que não fosse opção. Minhas dores e alegrias era eu quem procurava. Agora não. Eu quero que existência das coisas e das pessoas interfira, altere meu caminho, me surpreenda e deixe cicatrizes na minha pele e marcas de beijos na minha face.
E no final das contas, meu amigo, foi por isso que eu voltei. Para provar das coisas simples que sempre estiveram muito perto e eu fugia temendo descobrir que não eram elas, para mim.
Para ter as mãos confiáveis dos amigos a me guiar pelos ombros, quando a luz for muita e eu não conseguir enxergar.
Para, enfim, deixar de parecer e começar a ser.
O que quer que eu seja. Seja la como eu for.
Um beijo grande
Ana
© 2007, Ana Mangeon. All rights reserved.
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