Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Royal Mail

Querido Breno,

Foi-me necessária uma bela dose de ar fresco e uns dois ou três lenços de papel. Então eu coloquei o notebook no colo e busquei coragem para uma resposta. Sim, uma resposta requer coragem, pois futucar os porquês de uma decisão quase irracional como foi a minha de deixar a Cidade sem ter rumo acaba por remexer nas areias lodosas da minha alma.

A verdade é que nunca teve nenhum idealismo nas minhas partidas. E o único objetivo era um objetivo adolescente e por isso muito bobo. Eu queria somente estar em movimento e provar das coisas boas e ruins do mundo meramente para saber classificar-lhes o gosto e o cheiro. E eu queria esquecer um amor que doía muito mais do que trazia bem-estar. E eu estava indo bem nesse propósito. Lá, na terra dos homens de saia, com todos os reveses, eu tinha encontrado algo novo que eu só percebi que tinha achado quando notei que tinha perdido: paz.

Eu estava indo muito bem, Breno, até que eu desejei a Cidade e a Cidade, essa oferecida, me escancarou vulgarmente as pernas, me bajulou, me prometeu. E eu caí na conversa da Cidade. Caí feito uma pata no papo do hotel de luxo, no meu uniforme desenhado por Paul Smith, nos 20000 pounds por ano que ninguém me disse que não pagariam com muita folga minhas contas e me fariam abrir mão de meus pequenos porem indispensáveis prazeres e confortos. Eu amei a Cidade com tanta intensidade que não pude ver a cidade só me comia. Porque a cidade, a cidade era a musa e eu me via tão bem na foto com a musa, que eu também me sentia musa estando na foto com ela. Vai me dizer que você não se sente mais bonito com um Hyde Park escrito no caption daquela foto cinza? Mesmo com todo aquele aperto que a gente passa – que ninguém por aqui acredita – é bonito estar na Cidade.

O entorpecimento durou pouco, vi-me logo embarcando no mesmo desespero que cada um daqueles corpos sem rosto sentia subindo apressadamente as escadas rolantes de Picadilly Circus. Eu preciso SER na cidade. Eu preciso SER na cidade. Eu preciso SER na cidade.

Infelizmente, SER na cidade, quase sempre implica em TER. E eu quis ter quando ter nunca foi o meu forte. E na ansiedade de ter eu fui colocando meus pés pelas mãos aqui e ali. Fui me sonegando alegrias. Fui me ensimesmando mais do que eu já fazia. E a vida agora era acordar na hora de ir pro trabalho, trabalhar e voltar do trabalho.

Não tinha mais cinema, nem chopinho, nem mesmo tinha escolher os musicais que eu não podia pagar e adiar pro mês que vem. A cama ficava desfeita, mas aquelas histórias de amor, isso não tinha. E os mesmo lençóis naquela cama há semanas cheiravam a suor, camomila e mofo. A louça na pia, as unhas por fazer. As bibas do hotel a me perguntar porque eu tinha me descuidado tanto da maquiagem e dos cabelos. – I’m too tired. I’m too fucking tired.

Um belo dia, minha habilidade de reinventar dias bons de noites ruins vacilou. Eu me olhei e vi que tinha deixado as raízes brancas dos meus cabelos crescerem demais. E vi que minha batalha pela cidade era uma batalha vencida. E eu tinha perdido. E mais que perder a batalha eu tinha perdido a mim mesma na mentira diária de dizer a todo mundo que a Cidade é tão linda e eu estou muito bem aqui. Bollocks! A cidade tinha roubado de mim a minha essência Breno, a tranqüilidade de simplesmente estar e respirar aquela gente, aquela fumaça e me sentir parte. O bom sempre foi o caminho Breno, e as surpresas. Agora eu tinha metas, objetivos, treinamentos de gerencia onde me faziam planejar uma carreira, colocar no papel e assinar. E era tudo mentira. O SVQ: mentira!O MBA: mentira! Be a Executive Housekeeper in 5 years: bullshit! Nada disso eu nunca quis. Era pra inglês e pra brasileiro ver.

Sei, eu não posso te dizer que não é muito talento e vício desperdiçado, porque é. Tampouco que não somos nós o problema, porque somos. E foi isso que eu percebi naquela manha de terça feira, sentada no mesmo lugar de sempre, olhando o anúncio de vitamina dentro do metro. Eu tinha sonhado com o cara que eu devia ter esquecido e soube que não esqueci. E quis. Eu não estava vivendo uma vida mais confortável ou excitante que a eu sempre tive aqui. E quis. Eu não tinha amigos. Eu quis. E eu tinha milhões de metas e nenhum sonho. E quis meus sonhos de volta. Abri um espelhinho de bolsa porque achei que precisava de um pouco de rimmel. Não me vi. E não me vi porque eu não era mais Ana Paula Mangeon. Nem mesmo a Ana Costa em que me transformaram eu era mais. Eu era só mais um corpo minding the door and minding the gap, on and on. E foi assim que quando eu subi a rampa da Hyde Park Córner Station e chovia cântaros, eu não falei, mas me senti como tivesse urrado:

-Sorry London, I had enough.

Não vá pensar que eu notei isso de cara. Nem. Já são quatro semanas de reclusão e lágrimas. O Brasil me causa estranhamento e medo. Na verdade, eu me causo estranhamento e medo. Aqui eu não sou mais o que eu conto ser, e eu acho que esse é o nosso problema. A gente se conta muito bem.

Eu não tenho certeza de muita coisa, mas penso que eu voltei pra bancar essas mazelas e encarar esses fantasmas. A gente desiste de si mesmo sim, você tá certo. Mas eu acho que eu desisti de desistir.

Sei lá, Breno… Acho que eu tomei coragem de me ser. E vim bancar essa maldita dor, que ainda que pungente também sou eu.

25/04/2007

© 2007, Ana Mangeon. All rights reserved.

No comments

No comments yet. Be the first.

Leave a reply

  • Mais de Mim

  • Linked In
  • Trabalhos
  • Facebook
  • Last FM
  • Twitter


    follow anamangeon at http://twitter.com
  • Últimos Posts

  • Categorias

  • Boas Palavras

  • A Casa Invisível
  • Sem Aspas
  • Faz-me (So)Rir

  • Clients From Hell
  • Stuff No One Told Me
  • Luv Luv Luv
  • Assine o Feed

     RSS