Arquivos de May, 2007
Correspondência Violada
Márcio, passei na sua sala mas você não estava. Escrevi uma mensagem na sua caneca de café com marcador. Diz assim, em letra de mão: Paulinho da Viola sempre tem razão!
Mando esse bilhetinho no caso de você não reconhecer mais minha grafia. E se o café estiver com gosto estranho, me perdoe. Não resisti.
Foram três gotinhas de um bom rum cubano que eu ganhei de um pirata bonito nas minhas voltas pelo mundo. E uma lágrima antiga mas ainda boa, que eu chorei ao me despedir, enfim, de Marco Pólo.
Ana
No commentsConversa de Ratazana
Podia lhe dizer do fedor
Da Estrada. O gosto amargo
Das encruzilhadas. Dos chutes
que me jogam longe. Das pisadas
Que me cortam o rabo. E os sonhos.
Podia lhe falar da luz.
Dos letreiros. Da água
Dos bueiros. Da peste
Que me come o corpo. Da dor
Que me embota a alma. E o ânimo.
Mas do contrário,
Calo humilde. Talvez as vozes
Não lhe sejam claras. As avenidas
abrasem sua pele. Talvez a música não
afague seus tímpanos. E você não se veja
Descrito por seu próprio lixo.
Sim, a minha estrada é dura .
Mas vai alem do meu edredom.
Só quem declina da cama
Sabe que a linha do sonho é única
Porém longa.
E que as ratoeiras ficam burras
Se, de repente, a gente entende
que perdeu a fome.
[GMT -3]
Era ele ressonando cansado e desprotegido, e eu tendo que conter aquele carinho que efervescia na minha mão inquieta. Preveni-lhe de que não me viria o sono, e o sono não me veio. Sentei-me no chão, eu era mais um dos muitos livros. Existe a minha caligrafia a escrever a nossa historia, porque ele, ele fica me olhando, ele brinca com o jeito que eu seguro o cigarro e apoio o queixo nas mãos para prestar atenção melhor no que ele diz. Ele funga e se vira no sofá me segredando um desconforto adormecido que desperto, ele não confessa. Eu revivo todos os períodos incompletos daquela e de outras noites em que ele me propôs veladamente uma historia a quatro mãos. Eu nunca digo, eu não concluo. Eu não pergunto e não pontuo. Estendo-lhe a pena e ele faz um desenho que não sei qual. Falamos línguas diferentes. Por vezes a gente se entende. Outras não. Eu falo de amor correndo os lábios pelo seu peito e ele fecha os olhos e geme jogando a cabeça para trás. E eu estanco diante do meu amor entregue. E nessa hora que era hora dos corpos se implorarem eles delicadamente se pedem com aqueles puppy eyes. Eu faço uma piada, ele ri. E eu o acho muito mais bonito que antes. Sim, eu o amo muito. E eu sou mais um livro no meio daqueles livros espalhados pelo chão. Os lidos. Os por ler. Os que estancam pela metade por anos em contínuos reinícios, até que um dia a gente chega no capitulo final. Os livros que empacam. Aqueles para os quais a gente precisa estar preparado. Aqueles para os quais a gente nunca vai estar preparado. Ele tosse, talvez seja meu cigarro. Um ponto laranja na sala ainda escura, a brasa. A brasa. Meu amor dorme um sono entristecido e balbucia umas coisas quando eu dou meu último trago. Lembro-me de coisas que eu esqueci de contar. A gente tem o mesmo tamanho. Eu queria dormir de colher. É tarde. Eu volto para sua cama e deito na diagonal para não me dar conta do espaço. O teto é muito branco. Na cabeceira indícios de que um dia houve ali um grande espelho preso por parafusos que eu não quis contar. Pares de sapatos iguais exceto pela cor e camisetas passadas. Outros indícios de que naquele cômodo existe vida. Sinto ciúmes. Wake up! O sol entra por uma fresta da cortina e o despertador se cala. O sol traça uma linha dourada nas minhas coxas muito brancas. Leio. Wake up! Venho até o beiral e observo. Wake up! Não resisto, corro meus dedos no seu rosto e ele abre os olhos, atordoado. Sinto-me ligeiramente intrusa e lamento não poder fazer-lhe café. Ele ronrona, se levanta preguiçosamente e caminha arrastando os pés. Eu levanto e lhe abraço. Ele me abraça. Ele entra no chuveiro e toma banho. Eu troco meu pijama. E ele usa o mesmo perfume desde que a gente se conheceu. Eu calço o sapato, ele diz: vamos? Daí é a porta, os vizinhos que também vão trabalhar, um expresso amargo e alguma prosa. Três beijinhos carinhoso na boca, de despedida. Ele agradece a visita. Rio-me dessa estranha formalidade. Eu esqueço de agradecer a hospitalidade. Eu não quero ir. A gente se dá a costas porque vai em direções contrárias. Eu ainda me viro, eu quero fazer: psiu. Eu quero gritar: Ei! Olha! Eu te amo!
Mas somente me viro de volta, acendo um cigarro pra ocupar meus lábios e caminho. Olho pro céu e abro um sorriso.
Aquela brasa tremula entre os meus dedos flácidos. Aquela brasa inflama a minha alma e meu sangue ebule. As mãos chacoalhando de alegria e medo. Faço sinal pra um táxi: rodoviária, por favor. Eu olho o caos da cidade pela janela e compreendo que eu estou feliz. Já não existe um oceano entre nós.
(São Paulo, 03/05/2007)
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