[GMT -3]
Era ele ressonando cansado e desprotegido, e eu tendo que conter aquele carinho que efervescia na minha mão inquieta. Preveni-lhe de que não me viria o sono, e o sono não me veio. Sentei-me no chão, eu era mais um dos muitos livros. Existe a minha caligrafia a escrever a nossa historia, porque ele, ele fica me olhando, ele brinca com o jeito que eu seguro o cigarro e apoio o queixo nas mãos para prestar atenção melhor no que ele diz. Ele funga e se vira no sofá me segredando um desconforto adormecido que desperto, ele não confessa. Eu revivo todos os períodos incompletos daquela e de outras noites em que ele me propôs veladamente uma historia a quatro mãos. Eu nunca digo, eu não concluo. Eu não pergunto e não pontuo. Estendo-lhe a pena e ele faz um desenho que não sei qual. Falamos línguas diferentes. Por vezes a gente se entende. Outras não. Eu falo de amor correndo os lábios pelo seu peito e ele fecha os olhos e geme jogando a cabeça para trás. E eu estanco diante do meu amor entregue. E nessa hora que era hora dos corpos se implorarem eles delicadamente se pedem com aqueles puppy eyes. Eu faço uma piada, ele ri. E eu o acho muito mais bonito que antes. Sim, eu o amo muito. E eu sou mais um livro no meio daqueles livros espalhados pelo chão. Os lidos. Os por ler. Os que estancam pela metade por anos em contínuos reinícios, até que um dia a gente chega no capitulo final. Os livros que empacam. Aqueles para os quais a gente precisa estar preparado. Aqueles para os quais a gente nunca vai estar preparado. Ele tosse, talvez seja meu cigarro. Um ponto laranja na sala ainda escura, a brasa. A brasa. Meu amor dorme um sono entristecido e balbucia umas coisas quando eu dou meu último trago. Lembro-me de coisas que eu esqueci de contar. A gente tem o mesmo tamanho. Eu queria dormir de colher. É tarde. Eu volto para sua cama e deito na diagonal para não me dar conta do espaço. O teto é muito branco. Na cabeceira indícios de que um dia houve ali um grande espelho preso por parafusos que eu não quis contar. Pares de sapatos iguais exceto pela cor e camisetas passadas. Outros indícios de que naquele cômodo existe vida. Sinto ciúmes. Wake up! O sol entra por uma fresta da cortina e o despertador se cala. O sol traça uma linha dourada nas minhas coxas muito brancas. Leio. Wake up! Venho até o beiral e observo. Wake up! Não resisto, corro meus dedos no seu rosto e ele abre os olhos, atordoado. Sinto-me ligeiramente intrusa e lamento não poder fazer-lhe café. Ele ronrona, se levanta preguiçosamente e caminha arrastando os pés. Eu levanto e lhe abraço. Ele me abraça. Ele entra no chuveiro e toma banho. Eu troco meu pijama. E ele usa o mesmo perfume desde que a gente se conheceu. Eu calço o sapato, ele diz: vamos? Daí é a porta, os vizinhos que também vão trabalhar, um expresso amargo e alguma prosa. Três beijinhos carinhoso na boca, de despedida. Ele agradece a visita. Rio-me dessa estranha formalidade. Eu esqueço de agradecer a hospitalidade. Eu não quero ir. A gente se dá a costas porque vai em direções contrárias. Eu ainda me viro, eu quero fazer: psiu. Eu quero gritar: Ei! Olha! Eu te amo!
Mas somente me viro de volta, acendo um cigarro pra ocupar meus lábios e caminho. Olho pro céu e abro um sorriso.
Aquela brasa tremula entre os meus dedos flácidos. Aquela brasa inflama a minha alma e meu sangue ebule. As mãos chacoalhando de alegria e medo. Faço sinal pra um táxi: rodoviária, por favor. Eu olho o caos da cidade pela janela e compreendo que eu estou feliz. Já não existe um oceano entre nós.
(São Paulo, 03/05/2007)
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