Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de July, 2007

Desbotamento

Estes escritos vão, aos poucos, perdendo seu sentido. Agora entendo. Olhos não serão nunca os ouvidos. Mãos não serão nunca abraçadeiras metálicas. E corações jamais terão a potência de geradores nucleares. O pensamento, este nunca será a baliza bem como sentimento nunca será suficiente razão para se estar juntos. O mundo moderno nos brinda com outras variáveis menos afáveis e mais importantes.

A fonte, nunca seca. Eu sou um rio de cabeceira fustigada pelas tempestades. Quero transbordar sempre, mas construo diques enquanto sonego a outras sedes meu manancial. Eu sou um rio sem afluentes a correr frouxo e bravo. Caudaloso e só.

Existe uma mulher em mim que desabrocha já madura. Um perfume inebriante empestando o ambiente. Um botão que ao mesmo tempo que abre, murcha. Espinhos que se desprendem ao menor contato com os dedos. A fragilidade de pétalas escurecidas pela espera. E tempo.

Eu dormiria todas as noites, não fosse o pensamento.

Estou me preparando para uma liberdade dolorida e necessária. Estou me preparando para sair do conto e encarar a vida. Não dá pra ser feliz assim, com tanta poesia destilada e envelhecida em mim. Embebedo-me com menor trago. Vomito biles e transpiro ácido para purificar-me fígado e espírito.

Estou fazendo um curso por correspondência que pretende me ensinar a arte de permanecer no mais absoluto silêncio. Inclui um dvd com samples de gritos para se perder a voz. E uma faca boa de se amputar os dedos.

(São Paulo 31/05/2007)

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Facebook de Katharina

Vejo as fotos de Katharina e meu coração se contrai. Ela tem um sorriso que eu não tenho e ele. Ela in a relationship. Eu sempre single. E todas aquelas tardes em que fumávamos maços inteiros de Mayfair mentolado e maldizíamos os amores de Platão para ela são, agora, uma Suíça ensolarada de verão enquanto para mim, uma São Paulo inerte de poluição e neblinas mornas.

Não foram raras as vezes que eu achei que Katharina era como eu. Entre almoços, passeios, cantorias e porres vexatórios, falávamos a língua de quem ama em sonho, falava ela dele, enquanto eu falava de você. Falávamos desses amores que não acontecem apesar de terem tudo para acontecer. Eu mostrava a ela suas mensagens, ela me contava coisas que a irmã dela deixava escapar. E a gente ia alimentando uma a ilusão da outra pela simples necessidade de acreditar que existe predestinação e que o bem amado,espera.

Trago em meu peito a grande culpa. Eu ouvia Katharina com descrença. Sorria para ela e apoiava, enquanto minha alma envenenada murmurava: coitada, ele não vem.

E assim foi, até que Fernando apareceu como em um conto de fada. E amou Katharina exatamente como ela havia sonhado ser amada. E um dia, os dois partiram. E os dois ficam lindos abraçados na fotografia, na fotografia estampada naquele site onde ela me deixou uma serie de mensagens nostálgicas e carinhosas. Onde ela me pergunta de você. Onde ela me pergunta de nós. Onde eu não sei responder. Onde digito e apago incessantemente as mesmas palavras.

Onde ela ainda vai me convidar para o casamento e lhe estender o convite.

E eu vou mentir para ela e para mim. E jurar por Deus que você ainda existe.

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Ana e as cidades.

Relaciono-me com as Cidades. Eu me movo na sua direção e elas se mudam para mim. Então eu as recebo com toda a hospitalidade de minha alma. Não tem promiscuidade. Eu me apaixono. E depois me decepciono como deve ocorrer em qualquer paixão. Paixões são dadas a expectativas e cegueiras. Não tem jeito; paixão implica em projeção. Flano sem rumo todos os dias de sete às dez da noite e me vejo em cada uma dessas pessoas e dessas esquinas. Acho que no fundo não ter raízes é isso: ser capaz de pertencer a qualquer lugar.

Entro na confeitaria paradisíaca de que me falou um amigo, mas não me lembro da cerveja que ele bebe e que eu queria experimentar. Compro um doce muito doce e me vejo doce também. Saio, não me lembro de que lado eu vim e rio da minha capacidade de me repetir. Tantas foram às confeitarias, bakershops e pasticerias onde eu me adocei na minha vida. Chego aos 30 com uma sensação de fase concluída e dever cumprido. Olho para trás e vejo uma estrada longa de tijolos amarelos. Bendigo os vendavais.

Sim, parece ser sempre a mesma historia. E é. Encanto-me com a Cidade, mas depois de um tempo já não é mais bem assim. A regra da paixão vale para qualquer paixão. E caminhar pela Cidade é provar do sexo sem roteiro de um namorado novo. Perdoam-se as faltas pelo desconhecimento, descobrem-se caminhos novos a cada dia. Até que, enfim, esgotam-se as vias paralelas, as linhas de ônibus alternativas e começamos a preferir os caminho mais eficientes aos mais criativos. Os mais curtos aos de mais prazer. Nessa hora, fosse a Cidade um ser, seria o momento de começar a fingir orgasmos e ter dores de cabeça repentinas. E de horas-extras infintas que justificassem broxadas sem culpa ou comiseração.

Nessas horas em que o desejo esmorece em detrimento ao habito e eu e a Cidade de tamanha intimidade praticamente já não nos percebemos mesmo estando lado a lado, é que eu arrumo minhas malas e, simplesmente, parto. E eu sempre parto amando muito.

Acontece que o que prende é me ver doente de paixão. E, convenhamos: não é possivel paixão sem tesão.

( São Paulo, 27/07/2007)

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Telefone sem Fio

Quatro taças depois eu não resisto e disco e ele atende seco, ele é o vinho que eu não lembro o nome e joguei a garrafa fora. Eu engasgo, ele me pergunta se eu choro. Não agora. Somente em todas as voltas no Terminal Bandeira abarrotado quando o moleque me entrega uma barra de chocolate e prega antes de sua venda malograda. Eu sempre devolvo. Somente quando Louis Armstrong teima em invadir o shuffle no meu mp3. Somente quando cinema, jazz, arte e sonho erótico. Quando acordo e todos os dias antes de dormir. Eu choro o tempo todo um choro que soluça por dentro. Mas não agora.

Ele ameniza, fala de si, se explica sem tom de querer se explicar e é provável que nem queira. A informação é cordial e certeira quando eu já havia tido todas as epifanias possíveis. Queria que ele compreendesse que não é que eu não entenda. Eu preciso de processos para me acostumar com a realidade. Eu preciso que me digam o que eu sei, mas preferia não saber para que isso que eu sei se torne o que é. Mas ele não diz. Talvez ele não queira que seja, não sei. Talvez eu queira tanto estar enganada quanto ele quer não estar. E acaba que colocadas assim, no conta-gotas, todas as palavras resultam em silêncio. A gente fala muito, mas não diz. E eu que estava pronta pra dizer, já não sei.

Revela-me então pretéritos imperfeitos quando fala de mim; o que ele mais admirava era a minha coragem de me jogar assim, em queda livre no mundo, como se não soubesse que fuga é impulso e não requer nenhuma coragem. Corajosa eu sou agora que, fragilizada, não me escondo. Vou na infantaria. Eu retornei e enfrento. Provo de novas dores trincando os dentes quando nesta hora a conjugação feita em ato-falho me atinge bem na boca do estomago e uma lágrima escorre na discrição de um desfile sem fungadas e sem soluços pela minha cara. O sofá de veludo marrom onde moro é o ônibus e a voz dele o Louis Armstrong e aquela mulher sem medo, eu para ele, era tão inventada como era inventado ele, o homem perfeito, para mim. O falível não cabe na fantasia e os verbos podem revelar os segredos da alma nas suas travessuras em declinação. E termina tudo em uma promessa de domingo e o apertar de um botão. Desligo sem compostura, olhos lavados e arrependimento.

Vai ser duro concluir que você nunca existiu. E, pior, nem eu.

E pensando naquele nosso reencontro, vejo como os próximos capítulos podem ser irônicos:
- Quem ia imaginar que o que nos aproximava era aquele maldito oceano que havia entre nós?

( São Paulo 23/07/2007)

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Jardim de metáforas.

Empurro
e puxo depois.
Eu corto
para poder remendar.
Eu juro,
cruzo o dedo no dorso,
que esqueço
de que não é pra lembrar.

Faz tempo,
era inda eu menina.
Quiseste
para depois recusar.
Plantaste -
semente vã e maldita –
com mão
de quem não quer
ver brotar.

Nasceu,
e espichou lá pro céu.
Rompeu
a primavera em flor.
O fruto,
crido viçoso e sadio,
na boca
se revelou sem sabor.

Apago
como quem se revela.
Declino
como quem nunca aceitou.
Desfolho
- cabelo, tez, clorofila -
pedaços
do que em mim descolou.

Respiro.
Engulo em seco a saliva.
Arranco
raízes e cobertor.
Meu tronco,
antes maciça resina,
Tão oco
quanto me foi teu amor.

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Glasgow Nights – Stella

Desci do trem na estação central de Glasgow com um nó na garganta. Pela primeira vez eu entendia o que eles chamam de ter borboletas no estômago. O meu quase voava. E eu culpava o frio, aqueles menos sete graus, e nem inverno era ainda, mas era verão cá por dentro. Eu tremia, claro que eu tremia. Claro que havia de tremer, como não? Eu ia encontrar com Stella. E talvez como no livro houvesse para nós, um final feliz, como deveria haver para todas as grandes esperanças do mundo. Talvez fosse agora…

Stella chegara de manhã e ligara de um telefone público no albergue da Union Street. Baby, estou aqui. Aqui não tinha significado naquele momento, eu não pude nem mesmo perguntar por alguns segundos, pois não havia voz, mas ela foi se explicando, marcou um encontro à noite, num pub de universitários na Sauchiehall Street. Escolha estranha para Stella, fosse talvez uma má indicação de algum estudante local.

Optei pela saída da Union Street com aquela esperança de um esbarrão no meio do caminho que pudesse nos levar a algum outro lugar. Pub universitário não combinava mesmo com Stella, não com a Stella depois de tantos anos de espera. Não comigo vendo Stella depois de tantos anos. Surpresas, eu sempre odiei surpresas. Tivesse me ligado, teria ido a Paisley buscá-la. Teria organizado um belo jantar na minha casa, lareira acesa, vinho bom. Mas não; não me lembrava dela ser assim impulsiva. Talvez estivesse com problemas. A idéia de Stella me procurar numa situação adversa me fazia sentir mais vivo. A gente sente o sangue nas veias quando tem a ilusão de significar algo na vida de alguém. Stella significava. Não havia outra mulher no Reino Unido, no mundo, que não tivesse sido Stella ao toque da minha mão.

Já estava na Bath Street quando me veio à mente a última imagem de Stella que eu tinha. Cabelos anelados e negros na altura dos ombros, olhos azuis, pele muito branca que corava nas bochechas ante qualquer comentário mais capcioso. Voz baixa, meio escura. Mãos pequenas, dedos finos. Baixava os óculos e fazia aquele olhar de reprovação. Lembro-me que falávamos de cinema, e de vinhos e das pequenas sofisticações que a vida atribulada nos vai fazendo esquecer. Lembro que ela me disse uma vez: “dinheiro de nada nos serve quando não nos pode comprar tempo”. Tinha razão… Eu queria contar à Stella que eu achei a fórmula para ter tempo e dinheiro suficientes para pequenas excentricidades. Tivesse ela me avisado que vinha para algum bom concerto de jazz. Mas Stella, que era brisa mansa, resolveu chegar feito um furacão.

Ela havia marcado num lugar chamado Babuska. Eu nunca havia estado lá. Eu caminhava pela Sauchiehall Street um tanto desolado. Havia algo de errado na aparição súbita de Stella. Eu caminhava e queria um Brandy, mas é proibido beber em lugares públicos. Fazia um frio danado. Eu tinha as orelhas descobertas, o que me deixara um bocado surdo. As mãos estocadas nos bolsos. Como eu queria um Brandy. Eu parecia pequeno, me encolhia e não era o clima, mas o medo. O medo de ver Stella.

Eu encontrara o tal do Babuska, não era nada que se apreciar. Esperei alguns minutos na porta, talvez ela já estivesse lá dentro… Foi quando ouvi ao longe meu nome soando… Uma voz indefectível…

Uma mulher desengonçada que corria em minha direção. Cabelos curtos vermelhos e unhas. Sobretudo para esconder a nudez a se mostrar no conforto do aquecimento, onde a falta de gosto e senso permite peitos desnudos, paetês e saias do comprimento de um cinto. Saltos. Pegou-me pela mão e me arrastou porta adentro. Pediu um Bourbon e beijou me a boca. Falou-me de Barcelona, Milão, Lisboa, Londres. Uma mulher que movia sem parar as mãos atabalhoadas e tinha esmalte descascado nas unhas. Ela foi a festas. Ela teve amantes. E as marcas estavam no seu rosto, no seu corpo, nos seus olhos, no seu gosto.

Ela falava e eu via como o mundo, como conhecer o mundo, transforma as pessoas. Ela falava e eu procurava as marcas do mundo em mim. Teria eu também essas rugas, essas queimaduras e cicatrizes? Seriam notáveis? Não, eu não podia acreditar-me contaminado pelo mundo, não pelo mesmo mal de mundo que tinha feito Stella, a minha Stella, apodrecer. Eu me sentia doente, tonto com o falatório e o rumor do pub. Stella já estava tonta de tanto álcool. Eu já estava doente de Stella, doente de mim.

Levantei vagarosamente com a intenção de ir ao banheiro. Precisava olhar-me no espelho. Precisava ver-me são. Mas de repente notei-me na Sauchiehall Street novamente, caminhando na chuva, enfrentando o típico vento frio escocês que faça você o que fizer lhe estupra as roupas e congela a alma.

O primeiro trem partia às seis. Eram ainda três e meia. O mundo em Glasgow pára as três e meia. E tudo que eu queria era que o mundo parasse. Que o mundo desgrudasse de mim. Que o mundo desgrudasse de Stella.

Voltei à Central Station pela mesma Union Street somente para assegurar-me que toda ida tem uma volta similar possível. A porta do albergue trancada. Bato. O recepcionista me atende mal humorado. Ela vai dormir na rua, ou com alguém em algum lugar. “May I leave a note to Miss Stella Miller?”

Há de se comprar um ticket para Paisley. De lá, um avião. Há de se comprar um ticket para casa e mergulhar no mar de casa para lavar o mundo de mim. Não sei bem se foi o mundo que corrompeu minha Stella ou se foi a minha infindável espera. Melhor ela tivesse ficado protegida no meu sonho, eu protegido na minha ignorância. Melhor. Stella era só mais uma puta entre tantas e eu mais um romântico entre milhares. Talvez o podre não fosse o ranço de mundo no corpo. Talvez fossem que as cores que os olhos pintam, de repente, desbotaram. Eu precisava de sol para quarar minha alma. O mesmo sol que manchara a pele de Stella.

Entrego o pedaço de papel ao rapaz marroquino. Ele tenta ler em vão. Escreve ele mesmo o número do quarto. Mal chegara e já era popular.

E ficaram ali minhas últimas palavras para ela. Era mesmo tempo de voltar.

Perdão, Stella. Mas, de repente, eu entendi.

(originalmente publicado na revista Cortante, do querido Flávio).

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