Glasgow Nights – Stella
Desci do trem na estação central de Glasgow com um nó na garganta. Pela primeira vez eu entendia o que eles chamam de ter borboletas no estômago. O meu quase voava. E eu culpava o frio, aqueles menos sete graus, e nem inverno era ainda, mas era verão cá por dentro. Eu tremia, claro que eu tremia. Claro que havia de tremer, como não? Eu ia encontrar com Stella. E talvez como no livro houvesse para nós, um final feliz, como deveria haver para todas as grandes esperanças do mundo. Talvez fosse agora…
Stella chegara de manhã e ligara de um telefone público no albergue da Union Street. Baby, estou aqui. Aqui não tinha significado naquele momento, eu não pude nem mesmo perguntar por alguns segundos, pois não havia voz, mas ela foi se explicando, marcou um encontro à noite, num pub de universitários na Sauchiehall Street. Escolha estranha para Stella, fosse talvez uma má indicação de algum estudante local.
Optei pela saída da Union Street com aquela esperança de um esbarrão no meio do caminho que pudesse nos levar a algum outro lugar. Pub universitário não combinava mesmo com Stella, não com a Stella depois de tantos anos de espera. Não comigo vendo Stella depois de tantos anos. Surpresas, eu sempre odiei surpresas. Tivesse me ligado, teria ido a Paisley buscá-la. Teria organizado um belo jantar na minha casa, lareira acesa, vinho bom. Mas não; não me lembrava dela ser assim impulsiva. Talvez estivesse com problemas. A idéia de Stella me procurar numa situação adversa me fazia sentir mais vivo. A gente sente o sangue nas veias quando tem a ilusão de significar algo na vida de alguém. Stella significava. Não havia outra mulher no Reino Unido, no mundo, que não tivesse sido Stella ao toque da minha mão.
Já estava na Bath Street quando me veio à mente a última imagem de Stella que eu tinha. Cabelos anelados e negros na altura dos ombros, olhos azuis, pele muito branca que corava nas bochechas ante qualquer comentário mais capcioso. Voz baixa, meio escura. Mãos pequenas, dedos finos. Baixava os óculos e fazia aquele olhar de reprovação. Lembro-me que falávamos de cinema, e de vinhos e das pequenas sofisticações que a vida atribulada nos vai fazendo esquecer. Lembro que ela me disse uma vez: “dinheiro de nada nos serve quando não nos pode comprar tempo”. Tinha razão… Eu queria contar à Stella que eu achei a fórmula para ter tempo e dinheiro suficientes para pequenas excentricidades. Tivesse ela me avisado que vinha para algum bom concerto de jazz. Mas Stella, que era brisa mansa, resolveu chegar feito um furacão.
Ela havia marcado num lugar chamado Babuska. Eu nunca havia estado lá. Eu caminhava pela Sauchiehall Street um tanto desolado. Havia algo de errado na aparição súbita de Stella. Eu caminhava e queria um Brandy, mas é proibido beber em lugares públicos. Fazia um frio danado. Eu tinha as orelhas descobertas, o que me deixara um bocado surdo. As mãos estocadas nos bolsos. Como eu queria um Brandy. Eu parecia pequeno, me encolhia e não era o clima, mas o medo. O medo de ver Stella.
Eu encontrara o tal do Babuska, não era nada que se apreciar. Esperei alguns minutos na porta, talvez ela já estivesse lá dentro… Foi quando ouvi ao longe meu nome soando… Uma voz indefectível…
Uma mulher desengonçada que corria em minha direção. Cabelos curtos vermelhos e unhas. Sobretudo para esconder a nudez a se mostrar no conforto do aquecimento, onde a falta de gosto e senso permite peitos desnudos, paetês e saias do comprimento de um cinto. Saltos. Pegou-me pela mão e me arrastou porta adentro. Pediu um Bourbon e beijou me a boca. Falou-me de Barcelona, Milão, Lisboa, Londres. Uma mulher que movia sem parar as mãos atabalhoadas e tinha esmalte descascado nas unhas. Ela foi a festas. Ela teve amantes. E as marcas estavam no seu rosto, no seu corpo, nos seus olhos, no seu gosto.
Ela falava e eu via como o mundo, como conhecer o mundo, transforma as pessoas. Ela falava e eu procurava as marcas do mundo em mim. Teria eu também essas rugas, essas queimaduras e cicatrizes? Seriam notáveis? Não, eu não podia acreditar-me contaminado pelo mundo, não pelo mesmo mal de mundo que tinha feito Stella, a minha Stella, apodrecer. Eu me sentia doente, tonto com o falatório e o rumor do pub. Stella já estava tonta de tanto álcool. Eu já estava doente de Stella, doente de mim.
Levantei vagarosamente com a intenção de ir ao banheiro. Precisava olhar-me no espelho. Precisava ver-me são. Mas de repente notei-me na Sauchiehall Street novamente, caminhando na chuva, enfrentando o típico vento frio escocês que faça você o que fizer lhe estupra as roupas e congela a alma.
O primeiro trem partia às seis. Eram ainda três e meia. O mundo em Glasgow pára as três e meia. E tudo que eu queria era que o mundo parasse. Que o mundo desgrudasse de mim. Que o mundo desgrudasse de Stella.
Voltei à Central Station pela mesma Union Street somente para assegurar-me que toda ida tem uma volta similar possível. A porta do albergue trancada. Bato. O recepcionista me atende mal humorado. Ela vai dormir na rua, ou com alguém em algum lugar. “May I leave a note to Miss Stella Miller?”
Há de se comprar um ticket para Paisley. De lá, um avião. Há de se comprar um ticket para casa e mergulhar no mar de casa para lavar o mundo de mim. Não sei bem se foi o mundo que corrompeu minha Stella ou se foi a minha infindável espera. Melhor ela tivesse ficado protegida no meu sonho, eu protegido na minha ignorância. Melhor. Stella era só mais uma puta entre tantas e eu mais um romântico entre milhares. Talvez o podre não fosse o ranço de mundo no corpo. Talvez fossem que as cores que os olhos pintam, de repente, desbotaram. Eu precisava de sol para quarar minha alma. O mesmo sol que manchara a pele de Stella.
Entrego o pedaço de papel ao rapaz marroquino. Ele tenta ler em vão. Escreve ele mesmo o número do quarto. Mal chegara e já era popular.
E ficaram ali minhas últimas palavras para ela. Era mesmo tempo de voltar.
Perdão, Stella. Mas, de repente, eu entendi.
(originalmente publicado na revista Cortante, do querido Flávio).
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