Desbotamento
Estes escritos vão, aos poucos, perdendo seu sentido. Agora entendo. Olhos não serão nunca os ouvidos. Mãos não serão nunca abraçadeiras metálicas. E corações jamais terão a potência de geradores nucleares. O pensamento, este nunca será a baliza bem como sentimento nunca será suficiente razão para se estar juntos. O mundo moderno nos brinda com outras variáveis menos afáveis e mais importantes.
A fonte, nunca seca. Eu sou um rio de cabeceira fustigada pelas tempestades. Quero transbordar sempre, mas construo diques enquanto sonego a outras sedes meu manancial. Eu sou um rio sem afluentes a correr frouxo e bravo. Caudaloso e só.
Existe uma mulher em mim que desabrocha já madura. Um perfume inebriante empestando o ambiente. Um botão que ao mesmo tempo que abre, murcha. Espinhos que se desprendem ao menor contato com os dedos. A fragilidade de pétalas escurecidas pela espera. E tempo.
Eu dormiria todas as noites, não fosse o pensamento.
Estou me preparando para uma liberdade dolorida e necessária. Estou me preparando para sair do conto e encarar a vida. Não dá pra ser feliz assim, com tanta poesia destilada e envelhecida em mim. Embebedo-me com menor trago. Vomito biles e transpiro ácido para purificar-me fígado e espírito.
Estou fazendo um curso por correspondência que pretende me ensinar a arte de permanecer no mais absoluto silêncio. Inclui um dvd com samples de gritos para se perder a voz. E uma faca boa de se amputar os dedos.
(São Paulo 31/05/2007)
© 2007, Ana Mangeon. All rights reserved.
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