Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Rafael e Beatriz.

Pecamos pela nossa displicência. Outrora, haveríamos nos diluído no dia-a-dia, em todos aqueles oks que dizemos sem sequer ter ouvido o que nos foi solicitado. Em todas aquelas tarefas executadas sem brilhantismo, porém com razoável eficiência. Fizesse eu a cama todos os dias do mesmo jeito, não largasse você restos nos pratos. Não tivesse eu trocado o perfume e você o pós-barba, continuaríamos os dois dormindo e acordando e se dando bom dia todos os dias, confortáveis no consolo de nos sentirmos confortáveis. Afinal, ambos sabemos que não é possível ser feliz, mas se pode estar bastante satisfeito.

E estaríamos muito, muito satisfeitos se de uma hora para outra você não tivesse começado a dormir cada vez mais tarde e eu a acordar cada vez mais cedo. Se as panelas, às vezes, mudassem de lugar. Se o tapete não mantivesse suas franjas penteadas e os cinzeiros não estivessem sempre limpos. Se o papel higiênico acabasse e faltasse sabonete. Se houvesse lixo a que se botar fora. Se alguém recebesse as cartas ou pagasse as contas. Se tivéssemos nos dado conta.

Teria dado certo Rafael – ah se teria – não preferíssemos simplesmente deixar de regar as plantas à piedade de lhes arrancar as raízes da terra à unha. Se meus cabelos ainda entupindo os ralos, se sua barba ainda grudando nos azulejos do chuveiro. Se inda houvesse os carros na garagem. Se mesmo com manobras desnecessárias, tivéssemos estacionado as palavras. Pecamos pela nossa displicência, Rafael, fomos displicentes com nós mesmos.

E com aquele gato persa que nunca batizamos.

Ouvi dizer que, belo dia, pulou a janela da sala e foi viver sabe-se lá onde. Que adorou ter a casa toda para si, mas não pode com a dor da fome. Tampouco com a magnitude da sua solidão uma vez ciente do espaço antes ocupado pelos corpos, e do não haver mais corpos.

Fiquei pensando se haveria, agora, o gato preferido dormir num cesto do tamanho do seu corpo…

E então, me comprei uma cama de solteiro, onde nada falta. E eu também não sobro.

© 2007, Ana Mangeon. All rights reserved.

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