Senhorita Margot

Primeiro eram as botas em que se tropeçar bloqueando a porta e a meia calça se equilibrando em cima da televisão. Depois, pouco a pouco, um copo de refrigerante pelo meio, ainda gelado, o copo marcado de um batom escuro e um cream cracker onde se deu somente uma mordida interrompida por enjôos e flagelos. Bijuterias dentro do cinzeiro, onde um cigarro queimou até o filtro e apagou. Uma lufada de suor concentrado e álcool.

A parede vermelha ainda sem quadros e um vinil de 78 rotações tocando em 33, canções de um cabaré imaginário onde ela era melindrosa, cantora e pianista. Onde ela fumava uma cigarrilha com lábios sugestivos e destruía corações e relações estáveis. Onde se pensava que ela dava enquanto, que tontos, ela só consumia ao seu bel prazer. Onde ela despia as tetas cantando com voz grave, depois se vestia e dizia não.

As chaves de casa, do carro. Sobre a pia, algodões pretos de olhos manchados de pranto e rímel. Um vidro de perfume no final, esmalte vermelho de secagem rápida, uma calcinha de algodão cor da pele gotejando na torneira do chuveiro. Shampoo para cabelos rebeldes, e sabonete de gengibre com vanilla. Toneladas de cabelos secos pelo chão atestando que aos poucos começa uma demolição.

O corpo embriagado de Margot sobre a cama, mais pálido, mais flácido, roncando baixinho pra provar que ela é humana. Uma pequena poça de saliva formando-se sob seus lábios que pendem abandonados sobre fronha, empestando o ambiente com um hálito agridoce e inundando os lençóis com existência.

Margot está muito cansada de ser o que ela é, sem ter escolha. Cansada de ter sempre que ter uma frase, um gesto, um argumento, os olhos vivazes. De ter sempre atitude. De despertar curiosidade, atração, tesão e medo.

O corpo nu de Margot, seus poros arrepiados e mamilos rijos, seus braços acolhendo o tronco um pouco de frio, outro tanto por instinto. Margot está sonhando o anti-sonho. Margot quer ser normal, andar de chinelos, esquecer de fazer as unhas, aprender a fazer bolo e ter um namorado meio feio com quem ela só faça sexo duas vezes por semana. Margot quer, às vezes, não saber as respostas. Quer ser beijada na testa. Margot quer ser protegida, mas ela, em vez de puxar o edredom, vai se encolhendo, encolhendo, defendendo o corpo com o próprio corpo tentando ignorar os pêlos eriçados pelo vento encanado da Avenida Paulista.

O arrepio da solidão que entra por uma fresta da janela, por debaixo das portas, e por um furinho na sua carapaça que leva direitinho na alma. A mesma alma que ela acredita que não tem, e por isso, nunca se preocupou em selar.

(publicado originalmente no Livinrooom a convite da Lívia Santana)

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