Correspondência Violada

Querido Márcio,

Tenho lhe espiado pelo buraco da fechadura, mas não estou segura que é você dentro da casa. Vejo um rapaz. E Alikan. Vejo um rapaz na sala, sentado no tapete de sisal que se converte em tranças louras e depois em papel crepon azul. Ele conta estrelas num ábaco dourado. Ele não abre as janelas, nem mesmo a da varanda que dá para o quintal.

As folhas estão secas e se desfazem alimentando a terra. A terra está coberta por jambos muito púrpuras, que o passarinhos vêm bicar em busca de algum açúcar. O som de água corrente que não sei ao certo se é o poço em enchente ou se são os lençóis de seus olhos pequenos a correr frouxos pelo assoalho de madeira de lei, a desaguar no piso de chão, a me matar a sede nas horas que, incógnita, eu juntos as mãos e bebo dessa sua poesia melancólica.

E ainda que seja morna, é água muito boa.

Beijos,
Ana

Ps: Espero que Marisa não esqueça de nos trazer ungüentos para a alma.

© 2007, ana. All rights reserved.

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