Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de October, 2007

Temporal

Quis a rua,
apesar
Do som das gotas
Alvejando
Violentamente
As janelas
A me lembrar
Que apesar de fartos
Não bastam os ralos
Para tanta lágrima
Que lhe afoga em mim.
Para essa mágoa toda
Que a chuva vem e lava
Mas não leva.

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Escaladas

E lá no alto, o vento esfriando com o passar das horas, a grama úmida com cheiro de chá verde e a velha mania de tentar entender as sensações que me provocam o mundo. A agonia delicada de chegada ao ponto mais ao norte, ter que me decidir entre descer de volta ladeira abaixo encarrapitada nos meus rolimãs ou correr até me faltarem pernas e saltar, testando as asas que eu ainda tenho e nunca mais usei. Diante da iminência da aventura, pacificar-me na minha resignação e querer apenas sentar-me na beirinha do abismo, balançar meus pés descalços e desfolhar malmequeres de florações daninhas. Deleitar-me dessa paz de permanecer imóvel, de braços abertos, sem ter que dar notícias nem formular explicações. Simplesmente procrastinar sem culpa, tomada somente pela expectativa de primaveras críveis.

24/10/2007

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Abstração

O grande truque para amenizar as horas, é escolher uma boa trilha sonora, colocar o volume dos fones bem alto nos ouvidos até não ser capaz de distinguir os diálogos alheios.

É curioso observar o movimento sem palavras, fazer do escritório uma tela mambembe, ela que chega e coloca a pasta sobre mesa e se dirige ao meu chefe que se mantém olhando para seu notebook e movendo rapidamente os lábios, me fazendo escrever para seu personagem linhas monossilábicas de sim, não, é, tá. Pode ser. Foi.

Mãos que apontam não sei o que, o lápis do designer correndo no papel em traços que não me revelam nada então eu invento, é a casa, o campo, a home, o personagem e não é porra nenhuma além de um traço de lápis preto propagando-se pela folha branca, a tentativa de transformar idéia em matéria. A velha batalha entre conceito e arte.

Alguém diz algo. Meu chefe move as mãos no ar, vira as palmas para o teto e depois para o chão. E depois gira os dedos fazendo uma meia lua no ar. O colega do meu lado se balança na cadeira umas cinco vezes então murmura algo para o monitor e olha na minha direção. Fala comigo? Não sei. Não quero saber.

Escrevo legendas. Se eles soubessem o que dizem…

Aí o telefone toca, eu sei porque uma luz se acende vezes inúmeras. O telefone fica na minha mesa. Eu tiro os fones e volto para mundo. Digo o nome da empresa e boa tarde.

Digo meu nome. Chamo um outro nome.

Um minuto por favor para eu voltar a fazer parte.

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