Abstração
O grande truque para amenizar as horas, é escolher uma boa trilha sonora, colocar o volume dos fones bem alto nos ouvidos até não ser capaz de distinguir os diálogos alheios.
É curioso observar o movimento sem palavras, fazer do escritório uma tela mambembe, ela que chega e coloca a pasta sobre mesa e se dirige ao meu chefe que se mantém olhando para seu notebook e movendo rapidamente os lábios, me fazendo escrever para seu personagem linhas monossilábicas de sim, não, é, tá. Pode ser. Foi.
Mãos que apontam não sei o que, o lápis do designer correndo no papel em traços que não me revelam nada então eu invento, é a casa, o campo, a home, o personagem e não é porra nenhuma além de um traço de lápis preto propagando-se pela folha branca, a tentativa de transformar idéia em matéria. A velha batalha entre conceito e arte.
Alguém diz algo. Meu chefe move as mãos no ar, vira as palmas para o teto e depois para o chão. E depois gira os dedos fazendo uma meia lua no ar. O colega do meu lado se balança na cadeira umas cinco vezes então murmura algo para o monitor e olha na minha direção. Fala comigo? Não sei. Não quero saber.
Escrevo legendas. Se eles soubessem o que dizem…
Aí o telefone toca, eu sei porque uma luz se acende vezes inúmeras. O telefone fica na minha mesa. Eu tiro os fones e volto para mundo. Digo o nome da empresa e boa tarde.
Digo meu nome. Chamo um outro nome.
Um minuto por favor para eu voltar a fazer parte.
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