Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de February, 2008

DHL

Querido Breno,

Conversava com um amigo escocês, quando ele me interrompeu no meio de uma frase dizendo “sorry, I gotta go sleep. it’s 1 a.m. happy valentines, sweetheart!” Eu respondi aquele “happy valentines, huni” automático, resgatando um sotaque que não demora muito, eu perco. Foi quando, de súbito, percebi que pensava em você. Em como será que a Cidade vai tratar você amanhã (aqui ainda são 11:35) de manhã.

Irá ela lhe dar um dusk menos frio e um despertar com gosto de capuccino do Starbucks? Estará em Picadilly Circus, a moça coreana cantando macio para lhe afagar os ouvidos ou, em Euston, o acordeón do argentino soando um tango allegro para apressar seu coração?

Acabei torcendo para que você passe o dia muito concentrado nos seus papers. Muito busy like hell. Extremamente on a hurry. Fiquei lembrando de outros valentines nem tão funny, e lhe desejei uma menina linda que segure a sua mão no cinema e reclame do sotaque da Fernanda Montenegro. E um jantar honesto para variar do tuna sandwich. E um descer de escadarias esbaforido arrastado pela mochila. E dois lugares vagos naquele último trem, aquele decorado com gente kitsch e movido a love bubbles and sighs.

Foi pensando no trem, neste mesmo trem que ano passado me levou os últimos brios e o tesão pela Cidade, que me veio o impulso de lhe mandar este pacote, que eu espero muito que chegue a tempo. No frasco metálico, com cheiro de Irn-Bru e cor de Ribena, vai um velho elixir de família que serve para embriagar a razão e dar coragem de libertar a alma.

Beba um gole caso a coreana esteja rouca, ou se esgotem os bilhetes para o cinema. Caso você tenha que viajar de pé, ou se pegue misturando maionese com atum.

Beba um gole se a noite estiver fria demais, se você precisar de meias. Ou se o sono, simplesmente, não vier.

E vire sem dó o frasco todo goela abaixo, se você sentir muita vontade de comprar um balão metálico em forma de coração e presentear alguém.

Happy Valentines, ma friend!
Luv,
Ana

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A amiga (pelo lado metálico do espelho)

Na frente do espelho
arruma o cabelo, a amiga
com a mesma mão
que tenta amansar o tempo
quando, perdidos, os compassos aceleram.
Que não quer tomar o leme,
Mas que secretamente, ajuda a ajustar as velas.

Na frente do espelho
Tinge os lábios, a amiga
Com os mesmos dedos
De quem quer represar as lágrimas
Quando o pranto irrompe e transborda
E os mantém confinados, amputados,
sem o tato para acalmar a alma.

Na frente do espelho,
A amiga colore a face,
e pinta um sorriso terno.
A amiga contorna os cílios,
e inventa um olhar confortador.

Na frente do espelho,
a amiga se enfeita toda,
só pra ver se ele percebe,
que ela também, é uma mulher.

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