Arquivos de April, 2008
A questão do livro que o Rapaz de All Star Azul me deu
O dia começou às dezessete horas e trinta e um minutos. Primeiro um bocejo e depois checar os e-mails – como se alguém fosse mandar e-mails num sábado. Pois é. Alguém havia mandado. Alguém me pedia perdão pelas palavras agressivas ditas há mais de seis meses. Não queria me ofender. Ele tem ciúme e ainda me ama. Eu morro de pena e preciso de um banho. Meus cabelos estão desalinhados e eu cheiro a minha própria baba. Não vou responder, como de costume.
Convenço minha amiga a sair para comer uma pizza. E a gente fala de assuntos novos e velhas mazelas. Ela acha que eu devia escrever um livro sobre os meus amores tortos. Ela acha que eu atraio loucos, enquanto eu acredito que sou eu quem os procuro. Eu gosto de pepperoni, ela de frango com catupiry. E a moça de preto na mesa da esquerda insiste em flertar comigo para meu desânimo. Lembro de uma frase de outra amiga, e rio. Ela diria: Linda, eu gosto é de pau no útero. Certas frases são de uma sinceridade tão ruborizante, que não tenho coragem de dizer. Baixo a cabeça, e deixo minha opção sexual implícita no gesto.
No caminho de volta para casa, um garoto de programa me pede um cigarro. Eu não tenho, mas lhe ofereço um pedaço de brownie, que ele educadamente recusa. Logo depois, ele entra em algum carrão prateado e desaparece. Eu desço a ladeira, eu toco a campainha e o porteiro abre o portão. Eu subo de escadas e abro a porta. Eu tenho trabalho a fazer, mas não sei como. Eu tenho vontade de ligar e pedir a companhia que eu queria agora.
Mas aí chega outro e-mail, naquela maldita língua sedutora. Eu deleto sem ler para não cair outra vez na tentação de me permitir ser amada sem amor para dar em troca.
Desligo o computador. Não há nada que preste na televisão. O título do Carver que o Breno me mandou parece uma pergunta:
-Sobre o que a gente fala quando fala de amor?
Recupero da lixeira o e-mail, só para descobrir que eu não sei. E que talvez nunca vá saber. Não porque não exista uma resposta, certamente há e talvez ela seja simples. Mas eu tenho medo de acabar descobrindo que amor nada mais é do que o nome genérico para um bouquet de outros sentimentos menores, e concluir que o amor, em si, simplesmente não é. Ele não é um ente. Ele não existe.
Saber desmistifica as coisas, inclusive o amor.
E quando se trata de amor, eu ainda prefiro o mito.
Ballroom
Foi assim: ele deu uma banda no meu discurso-muleta nos primeiros dez minutos. E eu fique ali, desnorteada, fazendo uma força danada para me equilibrar. Músculos contraídos, respiração acelerada. Ia falando, me contradizendo enquanto insanamente buscava pelo centro de gravidade onde apoiar minha surpresa. Ouvia a voz da professora de balé gritando, encaixa, gira a cabeça, encontra o centro Ana, acha o centro! E assim foi até que numa pausa no meu falatório sem sentido, vi-me refletida nas portas de vidro do edifício. Percebi que não havia o menor sentido em me manter estável quando toda graça estava no bailar das minhas pernas trôpegas se confundindo com os padrões do piso. Fiquei tentando lembrar quando foi que a minha insegurança sufocou minha espontaneidade. Pensei em mãos minimalistas e certeiras de Bob Fosse. Pensei no Tanztheater de Pina Bausch. Tudo é dança, Ana. Tudo é dança.
Pensei um seja o que Deus quiser rindo da minha apresentação atabalhoada e disse um sincero gostei muito de te conhecer. Respirei demoradamente o ar daquelas bandas que eu nunca tinha ousado e me permiti um arrepio. Então parti tranqüila, contente por sem querer ele me ter lembrado de que ainda que eu desconheça os passos novos, eu sempre dancei muito bem.
No commentsId
Não adianta. Chega uma hora que a energia esgota. Não a do corpo. Os olhos continuam abertos, indagando, procurando o que olhar e o coração alterna ritmos sem se lembrar que faz tempo que o carnaval terminou. Culpe o café, a Coca-Cola. Culpe minha essência e as substâncias.
A idéia nunca repousa. Ela fica se debatendo dentro do crânio, a idéia parece uma enxaqueca latejando compassadamente dentro da cabeça. Eu apago as luzes, ela vira pensamento. Eu fecho os olhos, ela aparece nos sonhos. Eu fecho janelas. Eu fecho cortinas. Eu me fecho, mas a idéia não me deixa.
A idéia às vezes se chama futuro, outras se chama romance. Quase sempre a idéia se chama eu. Tem dias que a idéia é um seixo de chumbo no estômago. Em outros é a ausência do ar nos pulmões.
Hoje a idéia é cansaço e regozijo. Desgosto e admiração. Tédio e sobrecarga. É saudade e resignação.
A idéia é a mão trêmula que não segura, o braço que afasta. A idéia não me deixa e eu não a deixo me deixar.
A idéia poderia ser palavra, verbo, verso, gesto, ato, pacto, luta, tato, faro, respiração e gozo. Mas não é.
E não há nada que eu possa fazer, pois a idéia está muito confortavel na sua forma de suspiro.
No commentsOutsider?
Trazidas pelas mãos magnânimas de um amigo, eis que a pouco menos de um ano eu desembarquei em São Paulo para trabalhar numa agência de propaganda online. O que eu sabia desse mundo? Necas. O que eu sei hoje? Provavelmente 0,001 do que eu poderia (deveria?) saber. Mas eu acho que estou começando a pegar o jeito da coisa. O curioso é que quanto mais eu me proponho a imergir nesse mundo, mas eu me sinto feito afogada.
Não é pelo trabalho em si e seus porquês – pela primeira vez na vida eu faço o que eu realmente gosto – mas por todo esse culto aos gadgets, às coisinhas fofas e fúteis e a todos os nomes que eu devia saber para conseguir manter o chit-chat e ser assim, um bocadinho mais cool. Como eu posso fazer parte se eu nunca sei o nome de nada, a data de nada? Se eu ando enjoada de tequila? Se me apavora ver minha conta no negativo? Se eu odeio os anos 80? Se sou eu quem faz a faxina na minha casa? Se eu não tenho nem Ipod ?Se às vezes me irrita essa pompa de nome-e-sobrenome?
Eu fico pensando, pensando. É um mundo que me oprime um pouco. Me cansa esse papo de quadrinho, vídeo game e Google o tempo todo. E eu me sinto péssima quando me vejo me inteirando pra poder participar de conversas que não me dão um pingo de tesão.
Mas o que me incomoda mais nesse mundo, é perceber que na maior parte do tempo eu não sei distinguir o que é simpatia sincera e do que é apenas networking.
No commentsSobre livros que param na oitava página
Pensei em Vitória Régia envelhecendo naquelas 8 primeiras páginas do que deveria virar um livro. E depois pensei que não, ela não está envelhecendo. Talvez ela tenha congelado com o telefone na mão antes de ter a chance de dizer alô. Ou talvez fosse ela, já no momento em que pelas minhas mãos nasceu, um polaróide desbotado, e que acabou sumindo com o tempo.
No commentsNo MSN
Eu: Mana, o Chris tá grávido!Que medo.
Tina: Heinnnn???
Eu: A Syl acabou de me contar. Aquilo conseguiu emprenhar alguém…
Tina:Meu Deus…o Chris se reproduziu…Mana, isso é um desastre ecológico!!!!!
(Trata-se do docinho do meu ex-namorado escocês…aquele que colocou meu endereço, telefone num profile impublicável no adult friend finder…)
No commentsOrnitopost
Meu pai sempre me disse que só peru morre de véspera. Pois bem: ou eu tenho algum gen ornítico, ou ele estava enganado. Eu também sofro de véspera embora eu saiba que isso é uma tremenda bobagem.
Cara, o instinto rege. Eu sempre sei a hora que a vida vai dar uma cambalhota e, por favor, não entendam isso como algo necessariamente ruim. Às vezes a cambalhota dá o impulso pra levantar ou pra ir mais longe – tipo aquela jogadora de futebol batendo lateral, saca? O vento que tiras as coisas de sua ordem assobia antes chegar e eu posso ouvi-lo logo ali na porta me chamando. E eu sei que ele hoje pode até desarrumar os meus cabelos, mas não tem força para me levar mais não.
Eu tenho que confessar que, quando eu digo que odeio São Paulo, eu quase minto. Já não odeio. Parece mais com indiferença. Acho que eu e a Cidade nos ignoramos mutuamente. Eu a chamo de piranha, ela me chama de vaca. Nem eu nem ela temos cabelos para puxar. Tudo muito civilizado.
Na minha insegurança, eu tento deixar as decisões preparadas. Para cada “e se…” uma decisão embalada a vácuo, etiquetada e congelada. Um freezer cheio delas. Um banco de possibilidade. Dias de pensamento na consumição de prever, como se fosse possível uma vida ceteris paribus.
Ficar, partir. O mesmo dilema, mas sem aquelas antigas proporções de Mundo. Levo todos os dias o Tupperware com o discurso na bolsa, no caso de. E eu não tenho certeza se fico feliz ou triste quando às seis, ela já virou água.
Meu pai também diz que não se deve contar com o ovo no cu da galinha. Eu não conto, mas não custa ficar de olho na galinheiro.
Assim, eu vou vivendo. Dormindo pouco, tendo idéias bobas e criando essas metáforas chinfrins.
E esperando que alguém descubra uma conta que eu ainda não fiz e me surpreenda.
(Feliz de hoje já ser sexta-feira)
No commentsR.I.P
Morreu.
Simples assim.
Um Mo
dois erres
e um
eu.
O eu é a parte que dóí,
porque “eu” é a parte
que sempre fica.
Boo…
O céu se desfaz liquefeito e a temperatura descende. Eu fecho as janelas, mas ainda assim ouço o ruído dos carros passando na avenida molhada e que me lembra o mar. São Paulo já não me agride tanto(também não me agrada tanto). Eu estou com frio.
Os trinta e cinco metros quadrados do meu apartamento são muito espaço para o movimento de meu corpo débil. E muito pouco para o vôo lânguido dos fantasmas.
No commentsComportamento dos Egus Inflandus diante de alterações no seu habitat natural
Certamente eu coloco a culpa na TPM, porque esta é definitivamente minha melhor desculpa para todo e qualquer comportamento estúpido e temperamental. Hoje, por exemplo, ela foi culpada pela minha resmungação digna de um motor de Fiat 147 em dia de enchente – nhé-nhé-nhé,…
Sim, a TPM potencializa o dramalhão. Mas não tem culpa. O que me deixou mesmo desnorteada foi entender que a pantomima do ambiente de trabalho amistoso caiu. E, cara, depois que ela cai, não tem volta. Passa, de uma hora para outra, de falsidade cordial a tele-catch verbal, e quando eu vejo acabei de falar mau de um colega para ele mesmo no MSN. Uh! Gafe… E tem gente que consegue fazer pior. Quando a contaminação do ambiente é assim profunda, todo mundo sucumbe. O vírus se espalha rapidamente pelos dutos do ar-condicionado e quando se percebe, está todo mundo enfermo de meningite moral e perfídia crônica.
Eu me junto com outros resmungões e a gente mete o pau em tudo. E em todos. Conotativamente, é caro.
Mas depois, pensando friamente, eu entendo que eu resmungo por coisas que na prática não me afetam muito. Tem um bocado de observação racional nisso sim, porém muito mais da metade do impulso de criticar vem daquela vontade que todo mundo tem de ser o herói que avista o farol no meio da tempestade. Em um ambiente movido pela vaidade, todo mundo quer ser herói: eu quero, você aí também quer. Uns querem ter, outros querem ser. Alguns querem ambos. E todo mundo caga goma. Todo mundo quer ser herói, mas poucos se dispõem a ser mártir. Reza a lenda que faz parte:eu particularmente acho que essa é mais uma daquelas coisas ruins da natureza humana com as quais a gente acaba que se habitua.
E então, divagando sobre meu habitat laboral e nossa fauna corporativa – já meio high de um relaxante muscular poderoso que faz com que minha coluna não me importune quando eu tenho que passar mais de 12 horas em frente ao computador – pela ducentésima vez, concluo que eu preciso aprender a ficar de boca fechada.
Principalmente, porque apesar de o que eu digo sempre ser o que eu quero dizer, eu nunca me reprimo mudanças de opinião.
(Merda. Eu tinha que ter esse pensamento tenor?)
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