Ballroom

Foi assim: ele deu uma banda no meu discurso-muleta nos primeiros dez minutos. E eu fique ali, desnorteada, fazendo uma força danada para me equilibrar. Músculos contraídos, respiração acelerada. Ia falando, me contradizendo enquanto insanamente buscava pelo centro de gravidade onde apoiar minha surpresa. Ouvia a voz da professora de balé gritando, encaixa, gira a cabeça, encontra o centro Ana, acha o centro! E assim foi até que numa pausa no meu falatório sem sentido, vi-me refletida nas portas de vidro do edifício. Percebi que não havia o menor sentido em me manter estável quando toda graça estava no bailar das minhas pernas trôpegas se confundindo com os padrões do piso. Fiquei tentando lembrar quando foi que a minha insegurança sufocou minha espontaneidade. Pensei em mãos minimalistas e certeiras de Bob Fosse. Pensei no Tanztheater de Pina Bausch. Tudo é dança, Ana. Tudo é dança.

Pensei um seja o que Deus quiser rindo da minha apresentação atabalhoada e disse um sincero gostei muito de te conhecer. Respirei demoradamente o ar daquelas bandas que eu nunca tinha ousado e me permiti um arrepio. Então parti tranqüila, contente por sem querer ele me ter lembrado de que ainda que eu desconheça os passos novos, eu sempre dancei muito bem.

© 2008, ana. All rights reserved.

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