A questão do livro que o Rapaz de All Star Azul me deu
O dia começou às dezessete horas e trinta e um minutos. Primeiro um bocejo e depois checar os e-mails – como se alguém fosse mandar e-mails num sábado. Pois é. Alguém havia mandado. Alguém me pedia perdão pelas palavras agressivas ditas há mais de seis meses. Não queria me ofender. Ele tem ciúme e ainda me ama. Eu morro de pena e preciso de um banho. Meus cabelos estão desalinhados e eu cheiro a minha própria baba. Não vou responder, como de costume.
Convenço minha amiga a sair para comer uma pizza. E a gente fala de assuntos novos e velhas mazelas. Ela acha que eu devia escrever um livro sobre os meus amores tortos. Ela acha que eu atraio loucos, enquanto eu acredito que sou eu quem os procuro. Eu gosto de pepperoni, ela de frango com catupiry. E a moça de preto na mesa da esquerda insiste em flertar comigo para meu desânimo. Lembro de uma frase de outra amiga, e rio. Ela diria: Linda, eu gosto é de pau no útero. Certas frases são de uma sinceridade tão ruborizante, que não tenho coragem de dizer. Baixo a cabeça, e deixo minha opção sexual implícita no gesto.
No caminho de volta para casa, um garoto de programa me pede um cigarro. Eu não tenho, mas lhe ofereço um pedaço de brownie, que ele educadamente recusa. Logo depois, ele entra em algum carrão prateado e desaparece. Eu desço a ladeira, eu toco a campainha e o porteiro abre o portão. Eu subo de escadas e abro a porta. Eu tenho trabalho a fazer, mas não sei como. Eu tenho vontade de ligar e pedir a companhia que eu queria agora.
Mas aí chega outro e-mail, naquela maldita língua sedutora. Eu deleto sem ler para não cair outra vez na tentação de me permitir ser amada sem amor para dar em troca.
Desligo o computador. Não há nada que preste na televisão. O título do Carver que o Breno me mandou parece uma pergunta:
-Sobre o que a gente fala quando fala de amor?
Recupero da lixeira o e-mail, só para descobrir que eu não sei. E que talvez nunca vá saber. Não porque não exista uma resposta, certamente há e talvez ela seja simples. Mas eu tenho medo de acabar descobrindo que amor nada mais é do que o nome genérico para um bouquet de outros sentimentos menores, e concluir que o amor, em si, simplesmente não é. Ele não é um ente. Ele não existe.
Saber desmistifica as coisas, inclusive o amor.
E quando se trata de amor, eu ainda prefiro o mito.
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