Archive for May, 2008
Corte do diretor.
Envolvo-me com as longas jornadas tentando encontrar uma organização que nada tem a ver comigo. Eu sou naturalmente atabalhoada e tenho uma necessidade irracional de acreditar que estou fazendo tudo certo. Eu não sei lidar sequer com a idéia das críticas que surgirão cada vez que encontrarem um detalhe que eu deixei escapar e elas surgirão simplesmente porque é inerente ao ser humano essa tendência soturna de falar mal dos que partem.
(Eu falei. Eu falo. Falarão de mim, mas eu prefiro não imaginar o quê.)
Mantenho-me ocupada para evitar embarcar na minha ansiedade e sentir medo, mas o medo sempre aparece com discrição apesar da veemência. Ele surge nas horas em que eu repouso a cabeça no sofá e pretendo, mas não relaxo.
É prudente atribuir essa ânsia de vômito às borboletas no estômago. Eu não preciso dizer de onde elas vêm. Eu deixo que todos acreditem que eu tenho calafrios. Eles acham que no fundo, bem lá no fundo, eu sei que me estou atrevendo numa estrada que eu não estaria pronta para desvendar. Eu deixo que pensem o que quiserem, sem dizer que minha bagagem é feita de coisas que eles não provaram e talvez nunca venham a provar. Sim, eu tenho orgulho do chão que eu percorri porque ele me autoriza a ousar.
A insegurança revelada por minhas mãos trêmulas não vem de onde eles pensam vir. As palavras sempre foram minhas companheiras e as idéias fluem hoje corrediças feito mananciais de glaciação. Achem que não, nem ligo. Eu posso.
Tremo porque a direção que minha vida toma é graciosa, assustadora e necessária.
Há exatamente um ano, eu levantei a guarda e decidi que era hora de enfrentar os meus fantasmas. Mas aconteceu que surgiram distrações e eu fui me esquecendo das coisas das quais eu me queria livrar.
E quando eu menos esperava, quando meus punhos antes cerrados se descontraíram e minhas mágoas já haviam sido filtradas todas, alguém me avisa que é chegada a hora de encarar. E que não há tempo para hesitações. Eu encaro. Já me armei com sorrisos novos em folha e disse sim.
Ele organizou as coisas, depois me ofereceu um pacote de respostas sobre nós e sobre mim. Não daquelas respostas prontas impressas no verso, mas as que a gente precisa se atrever a desvendar.
Sinto-me como se estivesse prestes a colocar um fim no roteiro de um filme intenso cujo desfecho fica em aberto dando ao autor a chance de uma continuação que talvez sequer valha a pena. Raramente as continuações podem superar o original.
O que me assusta, é essa possibilidade de ponto final colocado por mim. Em mim.
No commentsCamerata
O corpo dominado
não lhe acompanha
quando seu pensamento
pela minha cama
passeia
No sono sedento,
Finjo repouso.
Nego canibalismos
e perpetuo o jejum.
Você insiste.
Instiga
depois, desiste.
Olho para o céu
e conto os segundos.
Os astros revelam
a coragem minguante.
Me larga sozinha,
me vingo adiante.
Conheço o ímpeto
Que lhe norteia;
Da mesma matéria,
Somos alma e hormônio.
Estarei lhe esperando
Na próxima lua cheia.
Sedex 10
Ai Breno…
Sua carta me pegou de surpresa. Chegou intempestiva e com uma sinceridade dolorosa que me fez pensar no quanto eu mereço lhe ver assim, de alma nua, quando nos privei de tantos possíveis cafés onde essas coisas relativas ao amor poderiam ter sidos discutidas mais aprazivelmente. São muitos os dias em que eu me vejo relembrando cenas londrinas e uma delas é sempre eu atendendo um telefonema seu ao descer as escadas para a estação Hyde Park. Dizendo hoje não dá e permitindo o espírito prefir o cansaço à vontade de dançar.
Eu sei sim dos romances aos quais você se refere. Não vejo bem como fraqueza, mas às vezes não resisto à idéia de maldição. Não sei se você tem disso também, mas não são raras as situações em que eu me pego pensando bastante sentida em como se eu sou assim tão foda como dizem, nenhum deles fica? Mas logo depois eu entendo que sou eu quem não os deixo ficar. Os amores inventados são mais bonitos, embora machuquem igual. E se a gente quiser, eles não precisam ter fim.
Me surpreende que você se sinta derrotado, logo você que vai vencendo a Cidade à unha. Não desistir já é uma vitória. Eu admiro seus papers, suas palavras e cada dia que você contabiliza. Queria ter tido a sua força.
Curioso como eu dou uma impressão errônea de mim no que eu escrevo. Acho que essa sensação de força vem da minha sinceridade, mas ela é defesa. É uma esperança boba de que sabendo como eu me sinto ninguém me machuque. Não dá muito certo, as pessoas gostam de cortar o rabinho da lagartixa pra ver se ele se mexe sozinho de verdade. A curiosidade acaba sendo, quase sempre, maior que a misericórdia (Sobre meus olhos, deixo Erikah Badu falar por mim. Procure pela canção chamada Green Eyes, ok?) Engraçado como as suas personas e o meu eu escancarado nos levam ao mesmo espaço ocupado pelo nada. Isso se minha sinceridade não for também uma persona.
Entendo também muito bem o que você fala sobre os romances, os escritos, digo. Os escritos por nós. Lembra daquelas 3 páginas que lhe mandei? Pois é. Vitória Régia continua lá congelada com o telefone na mão. Nós não somos mais a mesma pessoa e agora eu não sei o que fazer com ela.
Confesso que fiquei com uma certa dó quando li o comentário que você me deixou. Fiquei me sentindo como se tivesse sem querer cravado o dedo numa ferida sua ao expôr as minhas. Rascunhei várias cartas, mas não soube como lhe dizer que no final das contas, o amor dos livros é ganhar na roleta apostando em um só numero. Na vida real, é hábito, tolerância, rotina. E me incomoda que na prática o amor pareça muito chato. Aí, eu invento, nós inventamos. E é nessa que nos entregamos às paixões, procurando uma alquimia que as torne isso que buscamos. Minhas fórmulas sempre explodem: eu saio queimada, e os caras fugidos. Não sei como andam as suas, mas se um dia funcionarem, espero que você me passe a receita.
Sentir-se especial é só uma questão de abrir os olhos quando na frente dos espelhos bons.(Serão os espelhos ou nossos olhos que nos distorcem?). Eu acho que você topou com um dos bons e ele lhe mostrou esse menino. Esse menino não tinha todas essas marcas e sorria.
Não acho mesmo que você esteja andando para trás. Nem assim tão perdido quanto pensa. Minha experiência diz que todas as vezes que nos esforçamos para sermos maduros acabamos soando forçados, distantes, frios e infantis. A maturidade deve ser espontânea, acho. Não tenho certeza sobre isso.
Ver e viver será sempre um prazer entristecedor. É penosa essa certeza de que nunca seremos capazes de provar – e comprovar – tudo. Fiquei pensando na frase de Camile Claudel esses dias, define bem o que eu sinto. E me ocorreu que essa ausência não é como uma úlcera que possa ser cauterizada e cicatrizar. Na nossa alma, Breno, mora um buraco negro faminto, que vai sugando tudo que a gente vê, conhece, prova e sente. O que a gente vive desaparece dentro dele e a fome nunca é saciada. Mas a gente tem opção: podemos procurar novas fontes ou simplesmente relaxar e deixar que ele nos sugue nos virando do avesso.
Vai, Breno. Liberta esse menino. Adoça esse adulto! Eu também não me lembro de como eu era antes do mundo grudar em mim mas, ainda assim,tenho certeza que hoje nós somos mais bonitos e mais completos apesar de todo esse vazio.
A gente sempre pode escolher como chamar essas marcas que carregamos, amigo. Só quem as têm pode se dar ao luxo de um dia fazer drama chamando de cicatrizes. E noutro posar de cool dizendo que são tatuagens.
Ah Breno, temos tanto repertório. Poderíamos ser qualquer coisa!
Por que caralho então a gente nunca decide ser feliz?!!!
No commentsComo nos livros.
Eu digo coisas para desafogar a alma e para lembrar que eu renunciei à minha obstinação e procurei me aquietar. É que há dias em que eu me dou conta de que nunca vai haver resignação possível. Procuro sensações alternativas à comiseração.
Concentro-me então na idéia de poder, um dia, sair para escolher as flores e dar uma festa. De encontrar um Mr. Dalloway que pacientemente me apazigúe as ilusões do peito e me permita lhe conceder uma última dança em louvor a todas aquelas coisas que poderiam ter sido, e não foram.
No commentsAlguma companhia fofa. Digam oi para a Psiquê

márcio says:
um gato!
. Ana says:
uma gata
o nome dela é Psiquê
adotei hj
. márcio says:
nossa, estranho pensar vc cuidando de alguém
Ouch!Que soco no estômago você me deu, Sr. Yo!
No commentsAusente
A distância não era desculpa. Nem a falta de dinheiro. Era tudo medo. Mas meu irmão me ligou e me pediu que eu ligasse, e eu não tive mais como me esconder.
Minha mãe atendeu forte, disse que me amava e passou o telefone para minha avó. Ela só me disse “não chora, minha neta”, mas já era tarde. As pessoas me olhavam assustadas quando eu soluçava muito alto. É que as janelas do ônibus todas fechadas criavam um quase-silêncio que eu rompi. Chovia muito e fazia frio. Faz ainda.
Eu chorei porque eu sabia que eu devia estar lá, segurando a mão magra e frágil de minha avó. Acovardei, não fui. Eu me escondi atrás das mesmas velhas desculpas que eu sempre uso para tudo. Eu chorei porque eu me senti egoísta, eu me senti desprezível. E eu continuo chorando porque eu não consigo me mover. Eu sei o que é certo – quantas vezes a gente não sabe? – mas eu não consigo fazer.
Eu não pude ir porque eu não sei como olhá-la sem tentar encontrar os dois e tive medo que meu olhar acabasse perpetuando a ausência dele por todos os lugares para onde eu olhasse. Que direito eu tenho de no lugar de conforto levar mais saudade?
Meus avós sempre pareceram um conto de fada, sempre foram minha certeza de que esta coisa de felizes para sempre não foi simplesmente uma frase saída da cabeça de alguém.
E se alguém lesse no meu olhar as tantas vezes que eu desejei que quando chegasse a hora, eles fossem juntos para não terem nunca que se separar? Acharia mórbido? Tentaria me julgar? Iria me condenar?
Eu não consegui ir, pois não sabia como consolar a minha avó quando ela descobrisse que beijos não acordam nem princesas nem príncipes.
(Acho que não consolaria nem a mim mesma)
Nessas situações, eu não sei como dizer a alguém de muita idade que a vida continua. Eu só consigo abraçar e chorar.
E nem esse pouco que eu consigo fazer, eu fiz.
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