Sedex 10
Ai Breno…
Sua carta me pegou de surpresa. Chegou intempestiva e com uma sinceridade dolorosa que me fez pensar no quanto eu mereço lhe ver assim, de alma nua, quando nos privei de tantos possíveis cafés onde essas coisas relativas ao amor poderiam ter sidos discutidas mais aprazivelmente. São muitos os dias em que eu me vejo relembrando cenas londrinas e uma delas é sempre eu atendendo um telefonema seu ao descer as escadas para a estação Hyde Park. Dizendo hoje não dá e permitindo o espírito prefir o cansaço à vontade de dançar.
Eu sei sim dos romances aos quais você se refere. Não vejo bem como fraqueza, mas às vezes não resisto à idéia de maldição. Não sei se você tem disso também, mas não são raras as situações em que eu me pego pensando bastante sentida em como se eu sou assim tão foda como dizem, nenhum deles fica? Mas logo depois eu entendo que sou eu quem não os deixo ficar. Os amores inventados são mais bonitos, embora machuquem igual. E se a gente quiser, eles não precisam ter fim.
Me surpreende que você se sinta derrotado, logo você que vai vencendo a Cidade à unha. Não desistir já é uma vitória. Eu admiro seus papers, suas palavras e cada dia que você contabiliza. Queria ter tido a sua força.
Curioso como eu dou uma impressão errônea de mim no que eu escrevo. Acho que essa sensação de força vem da minha sinceridade, mas ela é defesa. É uma esperança boba de que sabendo como eu me sinto ninguém me machuque. Não dá muito certo, as pessoas gostam de cortar o rabinho da lagartixa pra ver se ele se mexe sozinho de verdade. A curiosidade acaba sendo, quase sempre, maior que a misericórdia (Sobre meus olhos, deixo Erikah Badu falar por mim. Procure pela canção chamada Green Eyes, ok?) Engraçado como as suas personas e o meu eu escancarado nos levam ao mesmo espaço ocupado pelo nada. Isso se minha sinceridade não for também uma persona.
Entendo também muito bem o que você fala sobre os romances, os escritos, digo. Os escritos por nós. Lembra daquelas 3 páginas que lhe mandei? Pois é. Vitória Régia continua lá congelada com o telefone na mão. Nós não somos mais a mesma pessoa e agora eu não sei o que fazer com ela.
Confesso que fiquei com uma certa dó quando li o comentário que você me deixou. Fiquei me sentindo como se tivesse sem querer cravado o dedo numa ferida sua ao expôr as minhas. Rascunhei várias cartas, mas não soube como lhe dizer que no final das contas, o amor dos livros é ganhar na roleta apostando em um só numero. Na vida real, é hábito, tolerância, rotina. E me incomoda que na prática o amor pareça muito chato. Aí, eu invento, nós inventamos. E é nessa que nos entregamos às paixões, procurando uma alquimia que as torne isso que buscamos. Minhas fórmulas sempre explodem: eu saio queimada, e os caras fugidos. Não sei como andam as suas, mas se um dia funcionarem, espero que você me passe a receita.
Sentir-se especial é só uma questão de abrir os olhos quando na frente dos espelhos bons.(Serão os espelhos ou nossos olhos que nos distorcem?). Eu acho que você topou com um dos bons e ele lhe mostrou esse menino. Esse menino não tinha todas essas marcas e sorria.
Não acho mesmo que você esteja andando para trás. Nem assim tão perdido quanto pensa. Minha experiência diz que todas as vezes que nos esforçamos para sermos maduros acabamos soando forçados, distantes, frios e infantis. A maturidade deve ser espontânea, acho. Não tenho certeza sobre isso.
Ver e viver será sempre um prazer entristecedor. É penosa essa certeza de que nunca seremos capazes de provar – e comprovar – tudo. Fiquei pensando na frase de Camile Claudel esses dias, define bem o que eu sinto. E me ocorreu que essa ausência não é como uma úlcera que possa ser cauterizada e cicatrizar. Na nossa alma, Breno, mora um buraco negro faminto, que vai sugando tudo que a gente vê, conhece, prova e sente. O que a gente vive desaparece dentro dele e a fome nunca é saciada. Mas a gente tem opção: podemos procurar novas fontes ou simplesmente relaxar e deixar que ele nos sugue nos virando do avesso.
Vai, Breno. Liberta esse menino. Adoça esse adulto! Eu também não me lembro de como eu era antes do mundo grudar em mim mas, ainda assim,tenho certeza que hoje nós somos mais bonitos e mais completos apesar de todo esse vazio.
A gente sempre pode escolher como chamar essas marcas que carregamos, amigo. Só quem as têm pode se dar ao luxo de um dia fazer drama chamando de cicatrizes. E noutro posar de cool dizendo que são tatuagens.
Ah Breno, temos tanto repertório. Poderíamos ser qualquer coisa!
Por que caralho então a gente nunca decide ser feliz?!!!
© 2008, Ana Mangeon. All rights reserved.
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