Corte do diretor.
Envolvo-me com as longas jornadas tentando encontrar uma organização que nada tem a ver comigo. Eu sou naturalmente atabalhoada e tenho uma necessidade irracional de acreditar que estou fazendo tudo certo. Eu não sei lidar sequer com a idéia das críticas que surgirão cada vez que encontrarem um detalhe que eu deixei escapar e elas surgirão simplesmente porque é inerente ao ser humano essa tendência soturna de falar mal dos que partem.
(Eu falei. Eu falo. Falarão de mim, mas eu prefiro não imaginar o quê.)
Mantenho-me ocupada para evitar embarcar na minha ansiedade e sentir medo, mas o medo sempre aparece com discrição apesar da veemência. Ele surge nas horas em que eu repouso a cabeça no sofá e pretendo, mas não relaxo.
É prudente atribuir essa ânsia de vômito às borboletas no estômago. Eu não preciso dizer de onde elas vêm. Eu deixo que todos acreditem que eu tenho calafrios. Eles acham que no fundo, bem lá no fundo, eu sei que me estou atrevendo numa estrada que eu não estaria pronta para desvendar. Eu deixo que pensem o que quiserem, sem dizer que minha bagagem é feita de coisas que eles não provaram e talvez nunca venham a provar. Sim, eu tenho orgulho do chão que eu percorri porque ele me autoriza a ousar.
A insegurança revelada por minhas mãos trêmulas não vem de onde eles pensam vir. As palavras sempre foram minhas companheiras e as idéias fluem hoje corrediças feito mananciais de glaciação. Achem que não, nem ligo. Eu posso.
Tremo porque a direção que minha vida toma é graciosa, assustadora e necessária.
Há exatamente um ano, eu levantei a guarda e decidi que era hora de enfrentar os meus fantasmas. Mas aconteceu que surgiram distrações e eu fui me esquecendo das coisas das quais eu me queria livrar.
E quando eu menos esperava, quando meus punhos antes cerrados se descontraíram e minhas mágoas já haviam sido filtradas todas, alguém me avisa que é chegada a hora de encarar. E que não há tempo para hesitações. Eu encaro. Já me armei com sorrisos novos em folha e disse sim.
Ele organizou as coisas, depois me ofereceu um pacote de respostas sobre nós e sobre mim. Não daquelas respostas prontas impressas no verso, mas as que a gente precisa se atrever a desvendar.
Sinto-me como se estivesse prestes a colocar um fim no roteiro de um filme intenso cujo desfecho fica em aberto dando ao autor a chance de uma continuação que talvez sequer valha a pena. Raramente as continuações podem superar o original.
O que me assusta, é essa possibilidade de ponto final colocado por mim. Em mim.
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