Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de June, 2008

Kaerus

Eu faço perguntas com tom de crítica, mas não faço por mal. É que me incomoda essa coisa de não conseguir compreender. Fiquei pensando, precisei caminhar por horas e fumar um cigarro atrás do outro. Precisei sacudir a cabeça e recobrar a razão.

Todos estão certos, é que sou tonta. Eu é que sou displicente e fico dando trela demais pras subjetividades da vida que nunca vão encher minha barriga nem me fazer ficar mais bonita na fototografia.

Eles têm razão, eles têm toda razão. Já estou velha para não me incomodar, para viver um dia após o outro sem me preocupar. Pra não querer casa, carro e restaurante da moda. Eu sou uma balzaquiana solteira, sem filhos, isenta de imposto de renda. Ana, já está mais que na hora de você começar a se envergonhar.

Concordo com eles: basear a felicidade no que é tangível é o que mantém o destino sob controle.

O problema é que o que me faria realmente uma pessoa mais completa e mais feliz só existe se for dado de presente. E não tem dinheiro no mundo que eu junte que possa comprar.

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Sentidos

Eu achava que a visão seria meu algoz nesses novos dias. Que a imagem – aquela que antes era a pose encarcerada no retângulo inerte que me impelia a uma qualquer ação nem sempre recebida com entusiasmo – uma vez tridimensional e tátil faria minhas mãos tremerem descoordenadas, meus suspiros abafados se tornarem audíveis e meus olhos há tanto embotados recuperarem seu lume original. Mas as mãos seguiram com suas tarefas diárias sem maiores tropeços e os suspiros, longe do som estridente de bicho no cio, são espirros discretos de pobre nariz congelado pelo frio da capital. As pupilas que antes imploravam qualquer demonstração de afeto sorriem pacíficas admirando a sua apresentação sempre clara e boa.

O tato também não me trai; hoje eu posso encostar carinhosamente no seu corpo, sem querer cravar-lhe as unhas. Não, minhas mãos aprenderam que não há jeito de lhe tomar à força, que elas não tem poder para quebrar esse casco onde você se protegeu sabe-se lá de que. Elas percebem discretamente a temperatura sempre morna da sua pele e se contentam e confortam, do mesmo modo com que meus ouvidos não procuram mais inventar o ritmo do seu coração quando recostam momentaneamente no teu peito.

É o olfato quem me condena quando seu perfume me diz que você está perto, quando me persegue o dia todo acidentalmente enredado nos meus cabelos. O cheiro que às vezes eu levo para cama comigo como um prêmio, como companhia e como uma maneira de não sentir mais nenhum arrependimento. Amadureci com os anos e aprendi a não maldizer os caminhos que eu não compreendo. Sim, foi uma estrada longa e acidentada, mas talvez agora tenhamos encontrado um ritmo aprazível para boa prosa enquanto vamos seguindo lado a lado, assim como quem não espera nem planeja nada.

(Bendigo os bolsos cada vez que sinto vontade de pegar na sua mão.)

E assim, quando o dia acaba e eu me vejo nos braços da companheira solidão de minha casa, repouso meu romantismo, apaziguado, no travesseiro. E banho o colchão com a saliva que me vai escorrendo pelo cantinho da boca, inundada pela nostalgia decenal e inocente do nosso primeiro beijo.

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Correspondência Velada

O espaço ficou distante demais
e eu já não conto estrelas.
Crescemos e nos tornamos
descuidados conosco.

(Eu sempre muito mais atabalhoada que você).

Os pés no chão não parecem âncoras,
mas são.
E as naus vagam feito
barquinhos de papel
passeando numa sarjeta qualquer
num dia, assim, mais pluvial.

Eu tenho sede de outras coisas
Aquele arrepio do vento,
de tesão em ir, é só um suspiro frio.

As hibernações viraram
conseqüências simples
das coisas mundanas e tangíveis
que nos tornam os egoísmos aceitáveis
e nos fazem pedir desculpas pelas ausências
prometendo presenças sem círculos vermelhos na agenda.

(Pena que meu umbigo não me dê seus bons conselhos.
Acho que eu me preocupo mais com ele
que ele comigo no final das contas.)

Um dia os bilhetinhos iam rarear
Eu sabia. Você também.
E haveria outros destinatários
Para tentar roubar, sem sucesso,
Este algo que é só meu e seu.

Talvez seja por isso que hoje
os carteiros não mais se anunciem:
Eles apenas enfiam suas palavras
por debaixo de minha porta,
sem procurar saber
quando eu estou em casa
dormindo comigo.
Sem o cuidado que merecem
essas cartas silenciosas
que chegam mesmo sem que você indique o endereço.

Essas cartas
que você me escreve com caneta permanente
em folhas de papel-espelho.

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Querido Big,

De repente ficou difícil escrever sentimentalidades apesar do sentimento estar cada vez mais vivo. Falta aquele ímpeto que se acabou consumido pelos anos, que esmoreceu vítima de todos os momentos onde ele poderia ter sido transformado em matéria e não foi.

Talvez eu já não consiga dizer porque tudo que poderia ter sido dito já foi dito sem maiores conseqüências que não minhas lágrimas escorrendo fugidias pela minha cara ante o filme ruim, e minha respiração asmática tentando encontrar o ar – o amor expande sua área, porém perde seu volume. É uma película delicada, são as minhas retinas. É o meu suspirar num dia de muito frio, um bafio alvo de vapor d’água condensando-se para lhe dar provas de existir. Aquele amor ainda é feito daquelas mesmas substâncias, ainda é o ar que eu, ofegante, respiro. Só que tornado rarefeito.

A poesia me escapa porque eu não mais a entendo. Seus contornos parecem uma composição disforme e sem conceito. Os versos que eu fazia derramando verve poética sobre a imagem desejosa do seu corpo tornaram-se apenas minha voz mais grave e lírica falando de criaturas míticas.

Eu posso lhe acompanhar com os olhos na sala escura, eu posso permitir que meus olhos saltem discretamente por cima da armação dos óculos. Eu suspiro. Eu ainda quero.. Eu posso ainda amar e eu amo. É…Apesar de tornada inerte, eu ainda amo.

Os anos passam à nossa revelia enquanto continuamos suspensos no ar. Então me assalta a sensação de que meu tempo está se esgotando.

Isso é o que me fez me debulhar em lágrimas durante aquele filme ruim: depois de quase três horas de consumição, o final feliz se dá nos cinco últimos minutos de projeção,me fazendo pensar se um tão breve gozo compensaria o penar da minha longa espera.

Fazendo-me entender que talvez eu nunca saiba a resposta.

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