Sentidos
Eu achava que a visão seria meu algoz nesses novos dias. Que a imagem – aquela que antes era a pose encarcerada no retângulo inerte que me impelia a uma qualquer ação nem sempre recebida com entusiasmo – uma vez tridimensional e tátil faria minhas mãos tremerem descoordenadas, meus suspiros abafados se tornarem audíveis e meus olhos há tanto embotados recuperarem seu lume original. Mas as mãos seguiram com suas tarefas diárias sem maiores tropeços e os suspiros, longe do som estridente de bicho no cio, são espirros discretos de pobre nariz congelado pelo frio da capital. As pupilas que antes imploravam qualquer demonstração de afeto sorriem pacíficas admirando a sua apresentação sempre clara e boa.
O tato também não me trai; hoje eu posso encostar carinhosamente no seu corpo, sem querer cravar-lhe as unhas. Não, minhas mãos aprenderam que não há jeito de lhe tomar à força, que elas não tem poder para quebrar esse casco onde você se protegeu sabe-se lá de que. Elas percebem discretamente a temperatura sempre morna da sua pele e se contentam e confortam, do mesmo modo com que meus ouvidos não procuram mais inventar o ritmo do seu coração quando recostam momentaneamente no teu peito.
É o olfato quem me condena quando seu perfume me diz que você está perto, quando me persegue o dia todo acidentalmente enredado nos meus cabelos. O cheiro que às vezes eu levo para cama comigo como um prêmio, como companhia e como uma maneira de não sentir mais nenhum arrependimento. Amadureci com os anos e aprendi a não maldizer os caminhos que eu não compreendo. Sim, foi uma estrada longa e acidentada, mas talvez agora tenhamos encontrado um ritmo aprazível para boa prosa enquanto vamos seguindo lado a lado, assim como quem não espera nem planeja nada.
(Bendigo os bolsos cada vez que sinto vontade de pegar na sua mão.)
E assim, quando o dia acaba e eu me vejo nos braços da companheira solidão de minha casa, repouso meu romantismo, apaziguado, no travesseiro. E banho o colchão com a saliva que me vai escorrendo pelo cantinho da boca, inundada pela nostalgia decenal e inocente do nosso primeiro beijo.
© 2008, Ana Mangeon. All rights reserved.
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