Intimidades Impossíveis – Acordar

Tudo tinha sido incrível. Jantaram de mãos dadas algo que ele cozinhou e ela tirou a mesa cantando um jazzinho mais sacana. Viram um filme ruim. Riram do próprio mau gosto, beijaram profunda e delicadamente. E treparam por horas a fio até que desabaram.

O lençol encharcado e os cabelos e o cheiro de vida perfumando o ar e orvalhando do quarto.

O suor dele cintilando feito purpurina, um veio da luz da rua desbravando as cortinas. As bochechas delas pintadas de cor-de-rosa. E o ventilador de teto girando preguiçoso, embalando o repouso, fazendo nhec, nhec, nhec. E alguma música que ficou tocando para as paredes esquecida na sala.

A respiração tranquila dele tocando de leve a nuca da moça. A moça acariciando a mão dele que segura de leve um dos seus seios. Ele dorme. Ela pensa.

Ela pensa nos seus corpos perfeitamente encaixados. No queixo dele cuidadosamente adaptado a sua saboneteira. Os músculos do peito dele que se amoldam aos seus ossos da omoplata. Os joelhos instintivamente posicionados no mesmo ângulo para que se acomodassem os dele dentro dos dela, sem causar nenhum desconforto. Ela quer ir embora, mas em vez de levantar, se aconchega .

Ela adormeceu pouco antes que ele lhe viesse acordar.

Ele sorriu, descortinou um domingo ensolarado rumorosamente. E ela bocejou e murmurou um “bom dia” em retorno. Olhou o corpo dele iluminado pelo dia e era um corpo muito rústico, muito bonito e muito diferente do seu.

Ele serviu o café da manhã na cama. Ela comeu sorrindo calada . Ela estava feliz mas se sentiu sozinha. Não podia entender. Não queria aceitar.

Só ao amor cabia tamanha ergonomia.

Mas ele queria só sexo. E ela, também.

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Diga

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