Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Sangria

O corpo, às vezes, reage de forma estranhas e o estranho era não estar sentindo frio apesar da sensação curiosa de alguma umidade, como se algo fluido me abraçasse o tronco e as pernas por baixo dos edredons, uma troca da minha pele por uma pele que expulsasse , desgrudasse os restos de outros verões de mim e, enfim, me renovasse a tez por inteiro com todas as expectativas de dias de sol que coloram salutarmente sem deixar memórias nem cicatrizes.

Era sangue. Nos lençóis, no colchão. Tudo que há muito já devia ter sido lavado profudamente ou talvez queimado, ou talvez devesse simplesmente ter sido deixado para trás num fechar de porta definitivo até que o futum nauseabundo atraisse as moscas e os vizinhos. Era sangue. Era sangue que havia me corrido abundante , viscoso e quente pernas a baixo e agora coagulava entre as molas de minha cama.
Levantei e fiquei me olhando nua, olhando pro chão , esperando que eu gotejasse na tábua corrida, esperando a tragédia, querendo uma cena, um desmaio. Mas havia acabado. Tudo já havia sido expurgado.

Era hora então de tomar um banho longo, lavar a alma. Lavar os lençóis e colocá-los para quarar. De fazer uma tatugem nova, emagrecer 10 quilos, cortar os cabelos e marcar o clareamento dos dentes na certeza de mais sorrisos. Abrir as janelas da casa e deixar o cheiro fúnebre escapar e se misturar com a poluição da cidade. Encher a casa de flores de lavanda, comprar roupas coloridas e pintar as paredes de amarelo ovo.

De abrir os olhos, querendo ver. E ao ver, ter a coragem de enxergar.

O corpo, às vezes, reage de formas estranhas e aquele amor há tanto decomposto e apodrecendo em mim, poderia ter-me deixado sob a forma de torrente de lágrimas, ou de suspiro, mas ele precisava de um gran finale. Precisava ser apoteótico. Precisava de drama para me fazer entender que eu estava livre. Eu estou livre. Eu sou.
Era hora de colocar um traço preto sobre os olhos e borrifar perfume entre os seios. De jogar a bolsa nos ombros e dizer até logo para o gato que dorme sobre o teclado do computador. Estou atrasada, aconteceu uma eventualidade. Era hora de cumprir o papel.

De fingir que continua tudo igual. De fingir.
De parar de acreditar.

De parar de atuar (aturar?) e agir como nos filmes bons:
-Mesmo os finais que não são felizes são finais, amor.

© 2008, Ana Mangeon. All rights reserved.

No comments

No comments yet. Be the first.

Leave a reply

  • Mais de Mim

  • Linked In
  • Trabalhos
  • Facebook
  • Last FM
  • Twitter


    follow anamangeon at http://twitter.com
  • Últimos Posts

  • Categorias

  • Boas Palavras

  • A Casa Invisível
  • Sem Aspas
  • Faz-me (So)Rir

  • Clients From Hell
  • Stuff No One Told Me
  • Luv Luv Luv
  • Assine o Feed

     RSS