Archive for August, 2008

Oráculos

E enquanto eu via uma página que falava de um curso de escrita criativa que eu não vou fazer – Paris, Paris – esbarrei com este poema:

Two Cures for Love

1. Don’t see him.
Don’t phone
or write a letter.

2. The easy way:
get to know
him better.

Wendy Coper

É Ms. Coper.
You’re bloody right. :)

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Auto-Biografia Avessa 2

E se eu tivesse cumprido a promessa e esperado na Escócia?

Mais uma vez lá estava eu fazendo as malas. E tentava me animar repetindo que pelo menos dessa vez era perto. E que Systa me esperaria na estação. Era um sábado e era noite, nevava fraco e fazia um frio de doer os ossos que nem mesmo os dois aquecedores davam conta. Systa tinha razão. Não fazia sentido continuar lá no meio do nada alimentando as ovelhas e as esperanças. O Chef não ia voltar.

Eu nunca contei para ninguém, mas talvez ele o tenha feito. Por isso, tinha horas em que eu detectava um ar de piedade naquelas pessoas. Elas sabiam que eu não estava ali compactuando com sua acomodação natural.

Na semana anterior, Systa tinha me ligado dizendo que havia uma ótima oportunidade em Glasgow, que o dinheiro era razoável e que ela morria de saudades. E que já era tempo de acabar com aquele luto mesmo sabendo que de luto a minha vida não tinha nada. O combinado era que eu podia ir me divertindo com outros. E assim quatro anos se passaram de cama em cama. E todos eles partiam no final do verão e eu continuava lá, no mesmo quarto pequeno, na mesma cama de solteiro confortável. Controlando os mesmo corredores do mesmo hotel, cumprimentando as mesmas pessoas, seguindo as mesmas ordens e ganhando o mesmo salário.

De tempos em tempos, o Chef me ligava ou enviava uma mensagem por uma amiga em comum. E me fazia renovar a promessa de esperar quieta ali, que voltava. Até que eu fiquei sabendo por outras fontes que fazia dois anos que ele havia se casado com Helen, a noiva que o havia deixado naquele dia em que ele me tirou pra dançar e me arrastou para sua vida quando eu não tinha mais onde me agarrar.
Pedi demissão . Minha chefe aceitou com um grande sorriso no rosto embora pensasse que o Glasgow me reservava inda fosse pouco. Mas eu não estava indo buscar, e sim, pretendia deixar. Fui à Jester’s me despedir dos poucos amigos que ainda restavam com a chegada do inverno. O Portuga me deu um baseado, o mesmo que eu fumava tranquilamente jogada em minha cama quando o telefone tocou. Quando o telefone me disse: Hey beauty. I’m back. Ouvi dizer que você está indo para Glasgow amanhã. Busco você na estação. Estou aqui, com Helen. Temos algo a lhe dizer.

Foi pensando nessa ligação que eu sequer respondi, que embarquei no trem carregando uma mala preta gigante e uma dor de cabeça fenomenal. Que ele era louco, eu sabia. Mas Helen? Helen sempre teve aquela postura de mulher racional e poderosa. Helen é daquelas que usam perfumes bons, saltos altos e parecem ter olhar de raio-x. Helen estava de mãos dadas com o Chef quando eu desci o último degrau da escadaria que terminava na porta, na porta que ironicamente que dava para a Hope St. Ela então soltou e me fez um aceno, enquanto ele caminhava na minha direção.

E aí ele me disse que sentia minha falta e me beijou demoradamente como se fosse um primeiro beijo. Permanecemos ainda de olhos fechados e testa na testa quando a mão suave com cheiro de hidratante segurou meu queixo e girou minha cabeça delicadamente.

Helen tinha me beijado. E eu tinha correspondido o beijo.

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Auto-Biografia Avessa

“E se eu tivesse dito que ia com ele para Grécia?”

O Ferry Boat ia se afastando da costa e aquela paisagem de brancos e azuis ficava cada vez menor até que parecesse um delicado bibelô pairando no horizonte e desaparecesse. Sotos mexia displicentemente no meu cabelo silencioso como a morte, até mesmo sua respiração parecia muda. Pensaria que era só um espírito recostado no meu corpo, se não pudesse sentir seu coração apressado colado nas minhas costas e as gotas o seu suor lhe escorrendo pelas têmporas, enquanto ele mantinha sua cabeça carinhosamente encostada na minha. Ele queria ouvir meus pensamentos. Ele queria saber se havia arrependimento. Ele queria saber o que nem eu sabia.

Tudo que eu sabia era que a ilha ia se afastando, e com ela o que poderia ter sido um pedaço saboroso de vida sendo dragado para o fundo do oceano. A verdade é que haveria de ter funcionado, caso ele tivesse alguma intenção ser feliz, mas ele, ele nunca quis. Ele não é como eu e foi bobagem tentar ser. Eu me movo porque o movimento é da minha natureza, enquanto para ele, foi só mais um jeito de não sair do lugar e continuar reclamando veladamente de tudo. Era para ter sido como uma fantasia, um filme bobo, era para ter sido somente poesia, mas não foi. E em pouco tempo esvaiu-se a alegria novidadeira de estarmos juntos e de estarmos lá e ficamos confinados na nossa impossibilidade como casal e como seres humanos. Eu fui perdendo a paciência com as questões dele. Ele com a minha impertinência e ultimamente filosofávamos sobre nós com um distânciamento tão evidente que era como se tivéssemos por todos esses meses assistido a nossa vida de fora, em terceira pessoa. Como maus jogadores de xadrez.

Então apareceu Sotos, tão cheio de vida, tão sem medo de nada. Tão disposto a provar de um tudo sem fazer careta. E quando ele me disse: vamos? eu nem pensei. Saí com a roupa do corpo, sem bagagem. Sem bilhete de despedida. Nem sei pronde vou. Eu não perguntei. Eu sempre gostei do imprevisto – mas o que ele tinha sempre que deixar tudo combinado com semanas de antecedência pra depois descombinar tudo no último minuto?

Não sei. Espero que ele encontre uma esposa resignada, que tenha filhos bonitos e tranquilos. Que se encontre. Que não fique bravo demais comigo.

Que pegue o primeiro avião e retorne àquela casa de onde eu sei que preferia não ter saído. Onde vai encontrar tudo exatamente no mesmo lugar em que havia deixado e se apaziguar no conforto de poder ser, para sempre, exatamente quem ele sempre foi.

Como, agora, eu.

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Dupla-face

Eu sempre amo anjos tortos,
anjos caídos, anjos banais.
Eu amo sempre anjos enrustidos
que me amam em bondades sazonais.

Amo também demônios canibais
de salivas peçonhentas e secreções febris.
E pobres diabos, submissos e leais,
resignados com os seus remorsos servis.

Porém, o que nessa vida mais amo,
o que mais venero e o que mais cortejo,
é a humanidade inóspita do ser humano
quando há de escolher entre a razão e o desejo.

O ser humano, pleno de seus problemas,
no desafogo, quando a alma não se consola
Morde quem lhe apazigua seus dilemas
Beija a boca, depois cospe e se desola.

Eu sempre amo anjos de humores lábeis:
Hora cândidos, hora veementes
E amo anjos de vaidades frágeis
que conforto em meus braços inconsistentes.

E, por fim, amo -como tanto amor eu ouso?-
Homens. E lhes amo, com tanta voracidade
que lhes largo a casca na ilusão do repouso
enquanto carrego suas almas pela cidade.

Amo a inscicía confiante dos demônios.
Amo a eruptiva verve dos ímpetos seus.
E amo a ingenuidade patética dos anjos
que me amam, depois pedem perdão a Deus.

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Quinto Dia.

Caiu a ficha. Voltamos a programação normal.

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Quarto Dia

Chega a ser bonito o quanto ficamos maduros e resignados. E como essa história acabou sendo do jeito como contaram nos melhores livros que eu já li.

Quer dançar?

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