Dupla-face
Eu sempre amo anjos tortos,
anjos caídos, anjos banais.
Eu amo sempre anjos enrustidos
que me amam em bondades sazonais.
Amo também demônios canibais
de salivas peçonhentas e secreções febris.
E pobres diabos, submissos e leais,
resignados com os seus remorsos servis.
Porém, o que nessa vida mais amo,
o que mais venero e o que mais cortejo,
é a humanidade inóspita do ser humano
quando há de escolher entre a razão e o desejo.
O ser humano, pleno de seus problemas,
no desafogo, quando a alma não se consola
Morde quem lhe apazigua seus dilemas
Beija a boca, depois cospe e se desola.
Eu sempre amo anjos de humores lábeis:
Hora cândidos, hora veementes
E amo anjos de vaidades frágeis
que conforto em meus braços inconsistentes.
E, por fim, amo -como tanto amor eu ouso?-
Homens. E lhes amo, com tanta voracidade
que lhes largo a casca na ilusão do repouso
enquanto carrego suas almas pela cidade.
Amo a inscicía confiante dos demônios.
Amo a eruptiva verve dos ímpetos seus.
E amo a ingenuidade patética dos anjos
que me amam, depois pedem perdão a Deus.
© 2008, ana. All rights reserved.
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