Auto-Biografia Avessa
“E se eu tivesse dito que ia com ele para Grécia?”
O Ferry Boat ia se afastando da costa e aquela paisagem de brancos e azuis ficava cada vez menor até que parecesse um delicado bibelô pairando no horizonte e desaparecesse. Sotos mexia displicentemente no meu cabelo silencioso como a morte, até mesmo sua respiração parecia muda. Pensaria que era só um espírito recostado no meu corpo, se não pudesse sentir seu coração apressado colado nas minhas costas e as gotas o seu suor lhe escorrendo pelas têmporas, enquanto ele mantinha sua cabeça carinhosamente encostada na minha. Ele queria ouvir meus pensamentos. Ele queria saber se havia arrependimento. Ele queria saber o que nem eu sabia.
Tudo que eu sabia era que a ilha ia se afastando, e com ela o que poderia ter sido um pedaço saboroso de vida sendo dragado para o fundo do oceano. A verdade é que haveria de ter funcionado, caso ele tivesse alguma intenção ser feliz, mas ele, ele nunca quis. Ele não é como eu e foi bobagem tentar ser. Eu me movo porque o movimento é da minha natureza, enquanto para ele, foi só mais um jeito de não sair do lugar e continuar reclamando veladamente de tudo. Era para ter sido como uma fantasia, um filme bobo, era para ter sido somente poesia, mas não foi. E em pouco tempo esvaiu-se a alegria novidadeira de estarmos juntos e de estarmos lá e ficamos confinados na nossa impossibilidade como casal e como seres humanos. Eu fui perdendo a paciência com as questões dele. Ele com a minha impertinência e ultimamente filosofávamos sobre nós com um distânciamento tão evidente que era como se tivéssemos por todos esses meses assistido a nossa vida de fora, em terceira pessoa. Como maus jogadores de xadrez.
Então apareceu Sotos, tão cheio de vida, tão sem medo de nada. Tão disposto a provar de um tudo sem fazer careta. E quando ele me disse: vamos? eu nem pensei. Saí com a roupa do corpo, sem bagagem. Sem bilhete de despedida. Nem sei pronde vou. Eu não perguntei. Eu sempre gostei do imprevisto – mas o que ele tinha sempre que deixar tudo combinado com semanas de antecedência pra depois descombinar tudo no último minuto?
Não sei. Espero que ele encontre uma esposa resignada, que tenha filhos bonitos e tranquilos. Que se encontre. Que não fique bravo demais comigo.
Que pegue o primeiro avião e retorne àquela casa de onde eu sei que preferia não ter saído. Onde vai encontrar tudo exatamente no mesmo lugar em que havia deixado e se apaziguar no conforto de poder ser, para sempre, exatamente quem ele sempre foi.
Como, agora, eu.
© 2008, Ana Mangeon. All rights reserved.
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