Auto-Biografia Avessa 2

E se eu tivesse cumprido a promessa e esperado na Escócia?

Mais uma vez lá estava eu fazendo as malas. E tentava me animar repetindo que pelo menos dessa vez era perto. E que Systa me esperaria na estação. Era um sábado e era noite, nevava fraco e fazia um frio de doer os ossos que nem mesmo os dois aquecedores davam conta. Systa tinha razão. Não fazia sentido continuar lá no meio do nada alimentando as ovelhas e as esperanças. O Chef não ia voltar.

Eu nunca contei para ninguém, mas talvez ele o tenha feito. Por isso, tinha horas em que eu detectava um ar de piedade naquelas pessoas. Elas sabiam que eu não estava ali compactuando com sua acomodação natural.

Na semana anterior, Systa tinha me ligado dizendo que havia uma ótima oportunidade em Glasgow, que o dinheiro era razoável e que ela morria de saudades. E que já era tempo de acabar com aquele luto mesmo sabendo que de luto a minha vida não tinha nada. O combinado era que eu podia ir me divertindo com outros. E assim quatro anos se passaram de cama em cama. E todos eles partiam no final do verão e eu continuava lá, no mesmo quarto pequeno, na mesma cama de solteiro confortável. Controlando os mesmo corredores do mesmo hotel, cumprimentando as mesmas pessoas, seguindo as mesmas ordens e ganhando o mesmo salário.

De tempos em tempos, o Chef me ligava ou enviava uma mensagem por uma amiga em comum. E me fazia renovar a promessa de esperar quieta ali, que voltava. Até que eu fiquei sabendo por outras fontes que fazia dois anos que ele havia se casado com Helen, a noiva que o havia deixado naquele dia em que ele me tirou pra dançar e me arrastou para sua vida quando eu não tinha mais onde me agarrar.
Pedi demissão . Minha chefe aceitou com um grande sorriso no rosto embora pensasse que o Glasgow me reservava inda fosse pouco. Mas eu não estava indo buscar, e sim, pretendia deixar. Fui à Jester’s me despedir dos poucos amigos que ainda restavam com a chegada do inverno. O Portuga me deu um baseado, o mesmo que eu fumava tranquilamente jogada em minha cama quando o telefone tocou. Quando o telefone me disse: Hey beauty. I’m back. Ouvi dizer que você está indo para Glasgow amanhã. Busco você na estação. Estou aqui, com Helen. Temos algo a lhe dizer.

Foi pensando nessa ligação que eu sequer respondi, que embarquei no trem carregando uma mala preta gigante e uma dor de cabeça fenomenal. Que ele era louco, eu sabia. Mas Helen? Helen sempre teve aquela postura de mulher racional e poderosa. Helen é daquelas que usam perfumes bons, saltos altos e parecem ter olhar de raio-x. Helen estava de mãos dadas com o Chef quando eu desci o último degrau da escadaria que terminava na porta, na porta que ironicamente que dava para a Hope St. Ela então soltou e me fez um aceno, enquanto ele caminhava na minha direção.

E aí ele me disse que sentia minha falta e me beijou demoradamente como se fosse um primeiro beijo. Permanecemos ainda de olhos fechados e testa na testa quando a mão suave com cheiro de hidratante segurou meu queixo e girou minha cabeça delicadamente.

Helen tinha me beijado. E eu tinha correspondido o beijo.

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