Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Arquivos de September, 2008

Região Abissal

As palavras raream novamente. Não as compradas. Não as ágeis que satisfazem vez ou outra os olhos dos clientes que, ansiosos, lêem tudo sempre esperando uma revelação. Tenho epifanias ouvindo boa música, conversando bobagens, no chuveiro, em sonho e caminhando para casa.

Penso nas palavras de Clarice que diziam: quando eu não escrevo, eu não sou. Ou algo parecido com isso. Talvez eu tenha descoberto um jeito de escrevendo, também não ser. E me sinto orgulhosa todos os dias do trabalho bem executado até que lembro que quem produz o material capitalizável, não sou eu.

Eu me sou quando poesia. A palavra esperta não nasce de mim. Nasce de alguém que mora em mim que estou começando a conhecer. Não sei o que ela quer, não sei onde pretende chegar. Mas admiro o que ela faz porque ela é risada, é rajada de metralhadora. Ela é momento e descompromisso, por isso é simples mergulhar sem medo nas suas águas cristalinas; ela é superficial. Já eu, eu sou água profunda e escura. Meu encanto não está no espelho, nas conchas da arrebentação. É preciso coragem e fôlego.

Sorrio para os banhistas, eles são leves, eles se divertem. Sorrio para os banhistas procurando pelos escafandros.

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Livros escondidos

Ainda lembro do dia em que comprei o livro. Foi no meio de março de 2003.

Saí do navio encapotada e de luvas pois, apesar da primavera, ainda fazia muito frio. E chovia uma chuva rala e pontiaguda.

Para tripulantes, a porta de saída dava numa ruazinha escura que passava por baixo de um viaduto. Uma névoa pesada atrapalhava a respiração e era a mistura de ar condensado e amoníaco. Não se pode culpar a má-educação dos marinheiros quando tonéis de mijo é o que resulta de muita cerveja e algum desconsolo. Talvez muito. Porto Ântico era uma terra de poucas putas.

Mas adiante, estava o pequeno campo de futebol – uma jaulinha claustrofóbica cercada como fosse um galinheiro. Tinha dias que eu parava ali para olhar os galos, os pavões, os abutres e os napolitanos bonitos não tinham nenhuma vergonha na cara. Paulina, per te. E, às vezes, era gol. Mas na maioria, não.

Os orelhões para ligações que nunca se completavam e a sorveteria. O cinema que só passava blockbusters dublados e, enfim, a livraria.

A rotina era pagar dois euros por uma hora na Internet, postar uma qualquer coisa infantil e pouco inspirada para a platéia. Depois ler uma enxurrada de comentários que me fizeram sentir talentosa na arte das palavras, até o dia que eu descobri que eram fruto de uma notinha no Estadão que um amigo me arrumou sem eu pedir. Terminadas as leituras e as respostas, era hora de papear um pouco com aquele monte de gente sedenta por notícias do velho mundo. E esperar por ele. Tinha vezes que ele aparecia. Outras não.

Nesse dia, ele não apareceu e eu fiquei doente de tanta saudade. Levantei e resolvi que era hora de comprar um livro. Parei na frente da estante dos clássicos da literatura italiana. Fechei meus olhos e fiquei tateando as lombadas quadradas até que uma voz suave me disse: Fermati! Abri os olhos e o senhor de óculos de aro grosso e barba mal feita primeiro empinou o queixo, e depois fez aquele gesto mal educado que diz: “via, via”.

E lá estava ele: Gli amori impossibili. Lá estava Calvino repousando dentro de um bolso da mala que eu nunca mais tinha aberto e desenterrado de memórias que eu julgava sepultadas. Lá estava o livro quase intacto escondendo-se do meu olhar quiçá consciente do seu inevitável destino. Ainda fiz como nas muitas noites de insônia e tempestade; abri em uma página qualquer. Li um conto. Enfiei o livro na bolsa sem lembrar o que estava procurando antes.

Cheguei dizendo “trouxe algo para você” e meu colega – também apaixonado pela língua italiana – precisou tirar os fones para entender. Ele pegou o livro e ficou olhando uns segundos, correu as páginas. Leu a orelha que na verdade era a capa e disse que aquilo era um livro de bolso típico. E que nunca tinha lido Calvino.

-Trouxe para você porque ele não fala mais comigo – disse eu a ele.

Mas a verdade é que sou eu quem não quer mais ouvir. Cansei de impossibilidades.

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