Livros escondidos
Ainda lembro do dia em que comprei o livro. Foi no meio de março de 2003.
Saí do navio encapotada e de luvas pois, apesar da primavera, ainda fazia muito frio. E chovia uma chuva rala e pontiaguda.
Para tripulantes, a porta de saída dava numa ruazinha escura que passava por baixo de um viaduto. Uma névoa pesada atrapalhava a respiração e era a mistura de ar condensado e amoníaco. Não se pode culpar a má-educação dos marinheiros quando tonéis de mijo é o que resulta de muita cerveja e algum desconsolo. Talvez muito. Porto Ântico era uma terra de poucas putas.
Mas adiante, estava o pequeno campo de futebol – uma jaulinha claustrofóbica cercada como fosse um galinheiro. Tinha dias que eu parava ali para olhar os galos, os pavões, os abutres e os napolitanos bonitos não tinham nenhuma vergonha na cara. Paulina, per te. E, às vezes, era gol. Mas na maioria, não.
Os orelhões para ligações que nunca se completavam e a sorveteria. O cinema que só passava blockbusters dublados e, enfim, a livraria.
A rotina era pagar dois euros por uma hora na Internet, postar uma qualquer coisa infantil e pouco inspirada para a platéia. Depois ler uma enxurrada de comentários que me fizeram sentir talentosa na arte das palavras, até o dia que eu descobri que eram fruto de uma notinha no Estadão que um amigo me arrumou sem eu pedir. Terminadas as leituras e as respostas, era hora de papear um pouco com aquele monte de gente sedenta por notícias do velho mundo. E esperar por ele. Tinha vezes que ele aparecia. Outras não.
Nesse dia, ele não apareceu e eu fiquei doente de tanta saudade. Levantei e resolvi que era hora de comprar um livro. Parei na frente da estante dos clássicos da literatura italiana. Fechei meus olhos e fiquei tateando as lombadas quadradas até que uma voz suave me disse: Fermati! Abri os olhos e o senhor de óculos de aro grosso e barba mal feita primeiro empinou o queixo, e depois fez aquele gesto mal educado que diz: “via, via”.
E lá estava ele: Gli amori impossibili. Lá estava Calvino repousando dentro de um bolso da mala que eu nunca mais tinha aberto e desenterrado de memórias que eu julgava sepultadas. Lá estava o livro quase intacto escondendo-se do meu olhar quiçá consciente do seu inevitável destino. Ainda fiz como nas muitas noites de insônia e tempestade; abri em uma página qualquer. Li um conto. Enfiei o livro na bolsa sem lembrar o que estava procurando antes.
Cheguei dizendo “trouxe algo para você” e meu colega – também apaixonado pela língua italiana – precisou tirar os fones para entender. Ele pegou o livro e ficou olhando uns segundos, correu as páginas. Leu a orelha que na verdade era a capa e disse que aquilo era um livro de bolso típico. E que nunca tinha lido Calvino.
-Trouxe para você porque ele não fala mais comigo – disse eu a ele.
Mas a verdade é que sou eu quem não quer mais ouvir. Cansei de impossibilidades.
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