Coletânea de Pensamentos Desconexos

Todos os pronomes são eu;

Região Abissal

As palavras raream novamente. Não as compradas. Não as ágeis que satisfazem vez ou outra os olhos dos clientes que, ansiosos, lêem tudo sempre esperando uma revelação. Tenho epifanias ouvindo boa música, conversando bobagens, no chuveiro, em sonho e caminhando para casa.

Penso nas palavras de Clarice que diziam: quando eu não escrevo, eu não sou. Ou algo parecido com isso. Talvez eu tenha descoberto um jeito de escrevendo, também não ser. E me sinto orgulhosa todos os dias do trabalho bem executado até que lembro que quem produz o material capitalizável, não sou eu.

Eu me sou quando poesia. A palavra esperta não nasce de mim. Nasce de alguém que mora em mim que estou começando a conhecer. Não sei o que ela quer, não sei onde pretende chegar. Mas admiro o que ela faz porque ela é risada, é rajada de metralhadora. Ela é momento e descompromisso, por isso é simples mergulhar sem medo nas suas águas cristalinas; ela é superficial. Já eu, eu sou água profunda e escura. Meu encanto não está no espelho, nas conchas da arrebentação. É preciso coragem e fôlego.

Sorrio para os banhistas, eles são leves, eles se divertem. Sorrio para os banhistas procurando pelos escafandros.

© 2008, Ana Mangeon. All rights reserved.

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