Doriana

Doriana alongou-se elevando os braços, depois inclinou-se para frente com os joelhos bem esticados e colocou as mãos próximas aos pés. A grama estava úmida do orvalho e cheirava a chá, e isso fez com que ela sorrisse e catasse uma pedrinha do chão.

A pedrinha , lançada num movimento de sua mão, quicou três vezes no espelho d’ água do lago, serelepe como criança miúda. Doriana inventou que ela afundaria devagar pois era uma pedrinha muito delicada . E a delicadeza nunca deveria sucumbir à qualquer força do universo, nem mesmo à gravidade dos corpos.

De olhos fechados, ela ia imaginando a pedrinha afundar como uma pena que plana displicentemente ao sabor do vento e o olhar extasiado dos peixes. Via as algas acariciando sua superfície, beijando sua pele clara polida pelos atritos da vida.

No pensamento da menina, a pedrinha repousaria para sempre num colchão de musgo macio, bem quietinha no fundo do lago, imersa em beleza, em silêncio. Alheia a todas as questões chatíssimas do mundo.

Fazia muito calor, o ar se movia em rajadas frescas e alegres brincando com fiapos do meu cabelo. Um cachorro, que não era meu, brincava com o cordão dos meus sapatos e fazer-lhe uma festa acabou sendo um descuido sem precedentes.

Impotente, eu ainda tentei agarrar Doriana pela barra da saia e avisar que às vezes a vida é água turva, que às vezes a vida é água fria.

Como se houvesse jeito de segurar alguém que decide mergulhar.

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2 Comments so far

  1. Moca October 24th, 2008 6:51 pm

    eu tenho essa mania de mergulhar de vez, de buscar razões, andando de mãos dadas com a emoção, de nem querer saber, de nem ter razão.
    mas ando buscando um jeito de me segurar, ou pelo menos tomar fôlego antes do mergulho.

  2. Lívia Barcellos October 29th, 2008 10:25 am

    Pois eu atualmente não me atrevo a mergulhar em nada.
    E mesmo assim as águas teimam em me rodear…

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