Endiabrada
Era disso que eu falava quando dizia temer abrir as caixas que eu já havia fechado. Eu não gosto dessa mulher truculenta porque ela tem uma força que eu não controlo e ganas que não consigo cercear.
Estava tudo correndo bem, tínhamos bebido bastante e íamos dançar. Por que a vizinha louca tinha que ligar já chamando de piranha e vadia sem sequer me deixar dizer alô? Ela é doida, eu sei, mas o que ela tinha que dizer “um dia eu mato você” ?
Desci um andar de escada, bati na sua porta, berrei uns impropérios e arranquei de sua mão sem esforço a vassoura com que a desvairada me acertou bem na boca do estômago. Ainda tive tempo de olhar dentro dos seus olhos antes que ela batesse a porta me chamando de capeta. Levei a merda da vassoura e apresentei a arma do crime para a administração. Sei lá, queria era que ela tivesse me acertado de verdade, arrancado sangue para ter o que dizer para a polícia. Mas ela ficou assustada com a retaliação e tratou de se proteger trancando a porta em vez de continuar me atacando.
A Pequena Gueixa, de tão nervosa, desmaiou na portaria. E nessa hora eu me senti muito culpada por ter deixado o sangue me ferver nas têmporas dessa maneira. Aprendi a armar meus barracos quietinhos na alma…Por que não o fiz dessa vez? A gente ia dançar, ela estava contente e embriagada. Acho que todos nós estávamos. Por que eu não respirei profundamente, ri e larguei para lá como de hábito? Espero que eles me perdoem ter estragado a noite…
Era por isso que eu me mantinha encapsulada numa moça opaca e previsível.
Se me permito, esqueço a razão.
Se me liberto, perco o limite.
Quando me sou, nunca sinto medo.
© 2009, Ana Mangeon. All rights reserved.
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é estranha mesmo essa sensação de ver tudo vermelho e perceber q o outro, q se mostrava tão forte, é, pelo menos aos olhos da “platéia”, muito mais frágil q vc…eu tb tenho medo de me permitir e me libertar, mas isso é tão necessário às vezes…
ah, adorei seu blog! vc escreve muito bem!!
ah, ana. eu teria feito o mesmo ou pior!
Também acontece comigo.
oh, my! deu queixa? merece. quem não ficaria puta? viver é probido em prédios. ainda estou tentando lidar com isso, também. mas eu acho que sapatearia por mais umas 3 horas, de salto alto, daqueles bem toc toc, pra ela dormir feliz. hunf. beijo! and a happy new year.
Ana, já passei por isso, não em um prédio, mas em um boteco, que meus pais tinham.
Fato é que nessas horas ter controle parece submissão e o adversário se sente forte, mas quando nosso capetinha interno resolve mostrar as garras, eles se recolhem e se mostram em toda sua covardia.
Vc fez bem, menina. Com certeza outras noites terão e não serão estragadas por ninguém.
Beijos.